
“A poesia feminina já nasce recusando-se ao exercício da elocubração rarefeita, acadêmica e pseudo-filosófica.”
Sangrai o seio, moças
dilacerai o linho
Safo
Eros, construtor de cidades
Auden
A literatura brasileira contemporânea parece imersa numa nova consciência – tanto em quantidade como em qualidade – uma vez que a poesia feminina parece ganhar cada vez mais espaço no meio literário. Fator novo que se revela atraente.
Vale verificar que nunca antes, a escrita feminina teve uma participação tão ampla e medular no cenário literário – a produção poética por parte das mulheres no Brasil parece ser o grande acontecimento das últimas décadas quando o assunto é poesia.
A poesia brasileira salta aos olhos de quem lê através dos escritos de Adélia Prado, Ana Cristina César, Alice Ruiz, entre tantas outras que nos toma de assalto com uma originalidade prazerosa que nos permite entre outras coisas, revirar o âmago e compreender a dor, o desespero e a loucura de amar e ser desprezado.
E o mais interessante é constatar que não se trata de um movimento organizado – pensado e detalhadamente elaborado, como aconteceu com a “poesia marginal” nos anos 70. A mulher na poesia surge como elemento de surpresa, individual – quase como uma necessidade de identificação com símbolos e significados – fazendo crer que a mulher busca espaços neste cenário sempre tão masculino.
A poesia feminina percorre um caminho curioso, porque surge por entre questões específicas com referências existenciais. Elas não buscam questionar o sistema, a política. Apenas falam de si mesmas e de suas sensações. Trazem um histórico filosófico que levam de encontro a peculiaridades artísticas, como se houvesse um retorno as origens do homem enquanto ser pensante que se descobre artista.
Adélia Prado surgiu com suas epifanias de confessa inspiração bíblica ou franciscana – Ana Cristina César trouxe a auto-ironia “laica” - refinadíssima e corrosiva – enquanto Alice Ruiz exibe uma concisão e uma suavidade “orientais” em seus versos.
Definições a parte, o fato é que as mulheres buscam uma poesia mais “limpa” sem mergulhar no ponto acadêmico que faz da poesia um estudo concreto. Aqui, ocorre na verdade, uma recusa ao exercício de uma poética rarefeita, acadêmica, pseudo-intelectual – migrando-se diretamente para a necessidade de compartilhar sensações, de se permitir um novo olhar sobre a experiência diária com os sentidos. Dizer é tudo que interessa.
“Olho muito tempo o corpo do poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue nas gengivas”
Ana Cristina César
Emily Dickinson disse em carta a Thomas Higginson que os homens se permitiam “castrar” o que havia de melhor e mais bonito nos sentimentos para não se revelarem fracos ou afeminados. Em suas poesias, verifica-se uma exaltação de outras formas de beleza, de uma dor quase insuportável para a pele, de uma carência de sentir e amar livremente.
“Minha tristeza não tem pedigree,
há a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
mulher é desdobrável. eu sou”.
Adélia Prado
A mulher poeta parece estar alheia a modernidade, parece buscar no passado a origem de sua pele, como se a repressão precisasse ser ouvida para que só então interpretada e compreendida. Tanto tempo de silêncio parece encontrar eco nelas mesmas como forma de liberdade no verso.
“Por que a mãe de stella tem os nervos em pânico?
Por que não consigo cultivar folhagens?
Por que tão arduamente vivo
Se meu único desejo é ser feliz?
O alarido dos que enchem a praça exibindo feridas
rói o bordado do meu casamento,
tarefa que executei com meus pais e meus avós
longínquos”.
Adélia Prado
“Poderei dizer-vos que elas ousam?
ou vão, por injunções muito mais sérias,
lustrar pecados que jamais repousam?”
Ana Cristina César
A poesia feminina expressa claramente uma realidade atemporal - e foge por entre os mais diferentes lugares. Pode ter sido escrita ontem, hoje logo pela manhã ou amanhã. É impossível determinar o tempo, mas é totalmente possível verificar a força.
Eu penso conforme o tempo
Eu danço conforme o passo
Eu passo conforme o espaço
Eu amo conforme a fome
Eu como conforme a cama
Eu sinto conforme o mundo
Mas no fundo,
Eu não me conformo
Martha Medeiros
A mulher não precisa de um herói comum, precisa de alguém que vele seus sonhos, sejam estes quais forem – então quando faz poesia, lembra de coisas comuns do seu dia a dia que bem pode ser lavar um prato esquecido sobre a mesa na noite anterior ou preparar a mamadeira para a criança que chora no berço.
não sou matrona, mãe dos graccos, cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, adélia.
faço comida e como.
aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Essa nova poesia, se é que podemos denominá-la dessa forma – busca recuperar a vida cotidiana que fora abandonada pelos homens poetas que preferem falar da beleza física que os seduzem – do brutal prazer a dois, que as vezes é infinitamente solitário, mas eles não ousam descrever dessa forma. A poesia feminina busca sim, restos, traços, indícios de uma experiência humana vivida constantemente pelo sujeito.
Quando você pensa que viu tudo
e mesmo assim quer ver de novo
e sentir na pele uma emoção sabida e repetida
e que não cansa porque é sempre renovada
e mesmo tão cansada você pede você quer você provoca
e quando acaba você pensa que isso é tudo
mas não é
Isso é felicidade
Martha Medeiros
E você pode verificar que há nesse sentido uma entrega generosa a coisas mais simples que você reconhece no primeiro olhar. Você pode até pensar com você enquanto lê: ela amou o silêncio – ela se fez mulher sem saber – ela se perdeu depois que se entregou a ele – ela queria mais que uma pia repleta de louças – ela casou, teve filhos e ainda não se descobriu mulher.
E o personagem impresso no verso pode ser eu, pode bem ser você ou não ser nenhuma de nós, ser apenas ela – poeta brincando de interpretar a si mesma. Reintegrando muito mais que um simples cenário ou um invólucro da experiência urbana e humana.
A tentativa na poesia feminina é se exibir claramente que aqui é o universo “múltiplo e vário” dos sentidos, inclusive dos “sentidos calmos” e dos sentidos “destruidores”. A mulher se permite ser personagem e interlocutor do indivíduo comum e de sua experiência. Se faz protagonista do nosso ser e se mostra presente nesse estranho mundo no qual habitamos e mais, nos permite identificar o conteúdo estranho.
Obturação, é da amarela que eu ponho.
Pimenta e cravo, mastigo a boca nua e me regalo.
Amor tem que falar meu bem,
me dar caixa de musica de presente,
conhecer vários tons para uma palavra só.
Espírito, se for de deus eu adoro,
se for de homem, eu testo
com meus seis instrumentos.
Fico gostando ou perdôo.
Procuro sol porque sou bicho de corpo.
Sombra terei depois, a mais fria.
Adélia Prado
A mulher reassume o corpo e o investiga sem medo ou decência imposta pela falsidade que lhe chega em preces e falas alheias.
As palavras escorrem como líquidos
lubrificando passagens ressentidas
Ana Cristina César
tua mão
no meu seio
sim não não sim
não é assim
que se mede
um coração
Alice Ruiz
Estou assim tão melada de coisas
prontas
tudo começou há pouco
e já estou tão tonta…
Martha Medeiros
Sem o corpo a alma não goza
Adélia Prado
Mas estaria pronto o público para essa nova poesia? Emily Dickinson foi crucificada e esquecida por ser considerada “não adequada” em seu tempo. Hoje é elevada a condição de maior poeta da literatura norte americana. Adélia Prado foi execrada por comparar o corpo de mulher com as insígnias religiosas. Mas sobreviveu, tanto quanto sua poesia. “Dor não é amargura” – advertiu Adélia Prado quando falou do amor. “No teu peito também/amor/guerreia/amor?” lembrou Ana Cristina que revela que o mesmo homem que mata é o que te ama na cama.
agora
aqui
no dentro do outro
estilhaços de estrelas
pleno de si
esse cio
eterno início
nunca se sacia
Alice Ruiz
A mulher celebra o amor do jeito que o conhece, algumas sabem bem mais dele – outras apenas o imaginam ou assistem na televisão. São mulheres e essas vêem ganhando uma nova forma de identificação que pode ser vista nas poesias.
Há mulheres que dizem:
meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
eu não. a qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
é tão bom só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
o silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Adélia Prado
O fato é que a poesia sempre surpreende de tempos em tempos, quando surge alguém que fala o que alguém em algum lugar do mundo precisa ouvir. A poesia não hesita, vomita pra cima de você aquelas sensações de ontem a noite que vão sempre seguir com você e de repente ao abrir a página daquele livro – vai encontrar a sua realidade num verso te fazendo perceber que alguém, algum dia sentiu o mesmo que você e foi tão real que você nem imaginava que era possível descrever. Mas alguém o fez e esse alguém a gente registra na história como poeta mulher falando do cotidiano e das coisas que nos volteia e surpreende a caminho do trabalho, dentro de um trem ou ônibus lotado, numa praça num dia de chuva, em casa diante de mais um capítulo de novela.
Pena de morte
eram bastante bons
aqueles tempos de ódio,
em que planejávamos os nossos assassinatos pelo simples prazer de nos vingarmos
(…)
Tempos em que queríamos fazer um filho
para espancarmos juntos,
nos dias de ócio
(…)
Hoje afago-te as corcovas
e lustro-te as botas novas
Leila Miccolis
E assim se apresenta o convite, nos próximos dias, a poesia feminina de mulheres mencionadas nesse texto e muitas outras (claro) estrão nesta página a espera do olhares de vocês…