Posts Categorizados ‘Poesia

14
Jul

Hilda Hilst

Aquele outro não via…

Aquele outro não via minha muita amplidão
Nada lhe bastava. Nem ígneas cantigas.
E agora vã, te pareço soberba, magnífica
E fodes como quem morre a última conquista
E ardes como desejei arder de santidade.
(E há luz na tua carne e tu palpitas.)

Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma fome irada e obsessiva?

09
Jul

Florbela Espanca

Que importa?…

Eu era a desdenhosa, a indiferente,
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violência de paixão,
Como bate no peito à outra gente.

Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de desejo ou de emoção,
Enquanto as asas loiras da ilusão
Abrem dentro de mim ao sol nascente.

Minh’alma, a pedra, transformou-se em fonte;
Como nascida em carinhoso monte,
Toda ela é riso e é frescura e graça!

Nela refresca a boca um só instante…
Que importa?… Se o cansado viandante
Bebe em todas as fontes… quando passa?…

Poemas de Florbela Espanca, Martins Fontes, 1996 - S. Paulo, Brasil

07
Jul

Gilka Machado

Lépida e leve

Lépida e leve
em teu labor que, de expressões à míngua,
o verso não descreve…
Lépida e leve,
guardas, ó língua, em teu labor,
gostos de afago e afagos de sabor.

És tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesma acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente,
como rítmica serpente,
e se faz menos rudo,
o vocábulo, ao teu contacto de veludo.

Dominadora do desejo humano,
estatuária da palavra,
ódio, paixão, mentira, desengano,
por ti que incêndio no Universo lavra!…
és o réptil que voa,
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes, solta, à toa.
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de seu agrado.

Sol dos ouvidos, sabiá do tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação,
em que olvido insensato,
em que tolo recato,
te hão deixado o louvor, a exaltação!

– Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
– Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de
alucinação, és o elatério da alma… Ó minha louca
língua, do meu Amor penetra a boca,
passa-lhe em todo senso tua mão,
enche-o de mim, deixa-me oca…
– Tenho certeza, minha louca,
de lhe dar a morder em ti meu coração!…

Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me vestes quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
ou surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha…

Língua-lâmina, língua-labareda,
língua-linfa, coleando, em deslizes de seda…
Força inferia e divina
faz com que o bem e o mal resumas,
língua-cáustica, língua-cocaína,
língua de mel, língua de plumas?…

Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!…
Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, Editora Objetiva, 2001 - Rio de Janeiro, Brasil

05
Jul

Ana Cristina César

Casablanca

Te acalma, minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este som de serra de afiar facas
não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardías…

Estas molas a gemer no quarto ao lado
Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia
O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema…

As chaminés espumam pros meus olhos
As hélices do adeus despertam pros meus olhos
Os tamancos e os sinos me acordam depressa na
madrugada feita de binóculos de gávea
e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano

A teus pés, Editora Brasiliense, 1997 - São Paulo, Brasil

04
Jul

Cecília Meireles

Cecília Meireles

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

__________________________________________________
Flor de poemas, Editora Record, 1998 - Rio de Janeiro, Brasil

03
Jul

Alice Ruiz

Teu corpo seja brasa

teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo

um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo

02
Jul

Adélia Prado.

Moça na cama

Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas,
uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça em ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no topor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.

01
Jul

“A Poesia Feminina”

“A poesia feminina já nasce recusando-se ao exercício da elocubração rarefeita, acadêmica e pseudo-filosófica.”

Sangrai o seio, moças
dilacerai o linho
Safo
Eros, construtor de cidades
Auden

A literatura brasileira contemporânea parece imersa numa nova consciência – tanto em quantidade como em qualidade – uma vez que a poesia feminina parece ganhar cada vez mais espaço no meio literário. Fator novo que se revela atraente.

Vale verificar que nunca antes, a escrita feminina teve uma participação tão ampla e medular no cenário literário – a produção poética por parte das mulheres no Brasil parece ser o grande acontecimento das últimas décadas quando o assunto é poesia.

A poesia brasileira salta aos olhos de quem lê através dos escritos de Adélia Prado, Ana Cristina César, Alice Ruiz, entre tantas outras que nos toma de assalto com uma originalidade prazerosa que nos permite entre outras coisas, revirar o âmago e compreender a dor, o desespero e a loucura de amar e ser desprezado.

E o mais interessante é constatar que não se trata de um movimento organizado – pensado e detalhadamente elaborado, como aconteceu com a “poesia marginal” nos anos 70. A mulher na poesia surge como elemento de surpresa, individual – quase como uma necessidade de identificação com símbolos e significados – fazendo crer que a mulher busca espaços neste cenário sempre tão masculino.

A poesia feminina percorre um caminho curioso, porque surge por entre questões específicas com referências existenciais. Elas não buscam questionar o sistema, a política. Apenas falam de si mesmas e de suas sensações. Trazem um histórico filosófico que levam de encontro a peculiaridades artísticas, como se houvesse um retorno as origens do homem enquanto ser pensante que se descobre artista.

Adélia Prado surgiu com suas epifanias de confessa inspiração bíblica ou franciscana – Ana Cristina César trouxe a auto-ironia “laica” - refinadíssima e corrosiva – enquanto Alice Ruiz exibe uma concisão e uma suavidade “orientais” em seus versos.

Definições a parte, o fato é que as mulheres buscam uma poesia mais “limpa” sem mergulhar no ponto acadêmico que faz da poesia um estudo concreto. Aqui, ocorre na verdade, uma recusa ao exercício de uma poética rarefeita, acadêmica, pseudo-intelectual – migrando-se diretamente para a necessidade de compartilhar sensações, de se permitir um novo olhar sobre a experiência diária com os sentidos. Dizer é tudo que interessa.

“Olho muito tempo o corpo do poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue nas gengivas”
Ana Cristina César

Emily Dickinson disse em carta a Thomas Higginson que os homens se permitiam “castrar” o que havia de melhor e mais bonito nos sentimentos para não se revelarem fracos ou afeminados. Em suas poesias, verifica-se uma exaltação de outras formas de beleza, de uma dor quase insuportável para a pele, de uma carência de sentir e amar livremente.

“Minha tristeza não tem pedigree,
há a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
mulher é desdobrável. eu sou”.
Adélia Prado

A mulher poeta parece estar alheia a modernidade, parece buscar no passado a origem de sua pele, como se a repressão precisasse ser ouvida para que só então interpretada e compreendida. Tanto tempo de silêncio parece encontrar eco nelas mesmas como forma de liberdade no verso.

“Por que a mãe de stella tem os nervos em pânico?
Por que não consigo cultivar folhagens?
Por que tão arduamente vivo
Se meu único desejo é ser feliz?
O alarido dos que enchem a praça exibindo feridas
rói o bordado do meu casamento,
tarefa que executei com meus pais e meus avós
longínquos”.
Adélia Prado

“Poderei dizer-vos que elas ousam?
ou vão, por injunções muito mais sérias,
lustrar pecados que jamais repousam?”
Ana Cristina César

A poesia feminina expressa claramente uma realidade atemporal - e foge por entre os mais diferentes lugares. Pode ter sido escrita ontem, hoje logo pela manhã ou amanhã. É impossível determinar o tempo, mas é totalmente possível verificar a força.

Eu penso conforme o tempo
Eu danço conforme o passo
Eu passo conforme o espaço
Eu amo conforme a fome
Eu como conforme a cama
Eu sinto conforme o mundo
Mas no fundo,
Eu não me conformo
Martha Medeiros

A mulher não precisa de um herói comum, precisa de alguém que vele seus sonhos, sejam estes quais forem – então quando faz poesia, lembra de coisas comuns do seu dia a dia que bem pode ser lavar um prato esquecido sobre a mesa na noite anterior ou preparar a mamadeira para a criança que chora no berço.

não sou matrona, mãe dos graccos, cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, adélia.
faço comida e como.
aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.

Essa nova poesia, se é que podemos denominá-la dessa forma – busca recuperar a vida cotidiana que fora abandonada pelos homens poetas que preferem falar da beleza física que os seduzem – do brutal prazer a dois, que as vezes é infinitamente solitário, mas eles não ousam descrever dessa forma. A poesia feminina busca sim, restos, traços, indícios de uma experiência humana vivida constantemente pelo sujeito.

Quando você pensa que viu tudo
e mesmo assim quer ver de novo
e sentir na pele uma emoção sabida e repetida
e que não cansa porque é sempre renovada
e mesmo tão cansada você pede você quer você provoca
e quando acaba você pensa que isso é tudo
mas não é
Isso é felicidade
Martha Medeiros

E você pode verificar que há nesse sentido uma entrega generosa a coisas mais simples que você reconhece no primeiro olhar. Você pode até pensar com você enquanto lê: ela amou o silêncio – ela se fez mulher sem saber – ela se perdeu depois que se entregou a ele – ela queria mais que uma pia repleta de louças – ela casou, teve filhos e ainda não se descobriu mulher.

E o personagem impresso no verso pode ser eu, pode bem ser você ou não ser nenhuma de nós, ser apenas ela – poeta brincando de interpretar a si mesma. Reintegrando muito mais que um simples cenário ou um invólucro da experiência urbana e humana.

A tentativa na poesia feminina é se exibir claramente que aqui é o universo “múltiplo e vário” dos sentidos, inclusive dos “sentidos calmos” e dos sentidos “destruidores”. A mulher se permite ser personagem e interlocutor do indivíduo comum e de sua experiência. Se faz protagonista do nosso ser e se mostra presente nesse estranho mundo no qual habitamos e mais, nos permite identificar o conteúdo estranho.

Obturação, é da amarela que eu ponho.
Pimenta e cravo, mastigo a boca nua e me regalo.
Amor tem que falar meu bem,
me dar caixa de musica de presente,
conhecer vários tons para uma palavra só.

Espírito, se for de deus eu adoro,
se for de homem, eu testo
com meus seis instrumentos.
Fico gostando ou perdôo.
Procuro sol porque sou bicho de corpo.
Sombra terei depois, a mais fria.
Adélia Prado

A mulher reassume o corpo e o investiga sem medo ou decência imposta pela falsidade que lhe chega em preces e falas alheias.

As palavras escorrem como líquidos
lubrificando passagens ressentidas
Ana Cristina César

tua mão
no meu seio
sim não não sim
não é assim
que se mede
um coração
Alice Ruiz

Estou assim tão melada de coisas
prontas
tudo começou há pouco
e já estou tão tonta…
Martha Medeiros

Sem o corpo a alma não goza
Adélia Prado

Mas estaria pronto o público para essa nova poesia? Emily Dickinson foi crucificada e esquecida por ser considerada “não adequada” em seu tempo. Hoje é elevada a condição de maior poeta da literatura norte americana. Adélia Prado foi execrada por comparar o corpo de mulher com as insígnias religiosas. Mas sobreviveu, tanto quanto sua poesia. “Dor não é amargura” – advertiu Adélia Prado quando falou do amor. “No teu peito também/amor/guerreia/amor?” lembrou Ana Cristina que revela que o mesmo homem que mata é o que te ama na cama.

agora
aqui
no dentro do outro
estilhaços de estrelas
pleno de si
esse cio
eterno início
nunca se sacia
Alice Ruiz

A mulher celebra o amor do jeito que o conhece, algumas sabem bem mais dele – outras apenas o imaginam ou assistem na televisão. São mulheres e essas vêem ganhando uma nova forma de identificação que pode ser vista nas poesias.

Há mulheres que dizem:
meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
eu não. a qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
é tão bom só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
o silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Adélia Prado

O fato é que a poesia sempre surpreende de tempos em tempos, quando surge alguém que fala o que alguém em algum lugar do mundo precisa ouvir. A poesia não hesita, vomita pra cima de você aquelas sensações de ontem a noite que vão sempre seguir com você e de repente ao abrir a página daquele livro – vai encontrar a sua realidade num verso te fazendo perceber que alguém, algum dia sentiu o mesmo que você e foi tão real que você nem imaginava que era possível descrever. Mas alguém o fez e esse alguém a gente registra na história como poeta mulher falando do cotidiano e das coisas que nos volteia e surpreende a caminho do trabalho, dentro de um trem ou ônibus lotado, numa praça num dia de chuva, em casa diante de mais um capítulo de novela.

Pena de morte
eram bastante bons
aqueles tempos de ódio,
em que planejávamos os nossos assassinatos pelo simples prazer de nos vingarmos
(…)

Tempos em que queríamos fazer um filho
para espancarmos juntos,
nos dias de ócio
(…)

Hoje afago-te as corcovas
e lustro-te as botas novas
Leila Miccolis


E assim se apresenta o convite, nos próximos dias, a poesia feminina de mulheres mencionadas nesse texto e muitas outras (claro) estrão nesta página a espera do olhares de vocês…




Julho 2008
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