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Uma saudade no Bolso…
Poema 06
Seu Américo sempre chegava em casa
com sua pasta preta - com zíper no meio!
…abandonava o chapéu sobre a mesa
Sabendo bem que Ana iria com ele ralhar!
“Papai, tem lugar na porta de entrada!”
É claro que ele sabia,
…mas não era a mesma coisa!
Tão distante era a bendita porta,
…e ali – abandonado na mesa
A mão poderia buscá-lo a qualquer momento!
Antigos hábitos não somem no acaso…
Na pasta preta de zíper no meio,
…guloseimas para a sua neta
Que já sabia dos “presentes”
E esperava pelo chamado sorrateiro
Ana de novo ralhava:
“Papai, você está acostumando mal a menina!”
Ele abria o sorriso amarelecido
E de rabo de olho espiava a menina,
sair correndo com os doces para o quintal!
A menina nunca gostou de doces,
…mas aqueles trazidos pelo seu avô:
Que gostosura abrigava todas aquelas cores,
…amarelo, laranja, vermelho!
Na cozinha, ele provava do almoço
E Ana ralhava de novo.
Já era costume…
Vovô ”roubava” café do bule
Na xícara que ficava no canto da cristaleira
Era dele e ninguém punha a mão
Ouvir reclamações de Ana
…Só mesmo o vovô gostava,
Que ao ouvi-las lembrava sua “velha” querida
E ele saia sorrindo com suas lembranças no bolso…
Procurando-me e sussurrando meu nome pela casa!
O vento fazia isso bem mais alto que ele!
Vovô Américo andava pelas ruas na sua “magrela”
…vinha de longe – sem pressa!
Dizia que contava as pedras do chão
…vovô era homem forte
Tinha os anos vividos,
Talhados na carne da face
Tomava gema crua antes de o sol nascer
E antes mesmo já estava pelas ruas sem pressa
…com sua “amiga magrela”
Dizia ele que contava as pedras do chão!
Vovô sabia de quase tudo!
e sabia também que a gente dá cordas nos ponteiros do mundo!
E de repente - vovô não mais abandonou o chapéu sobre a mesa
…Ana chorava ao olhar a porta da entrada!
Por onde ele já não mais passava…
A velha magrela encontrou descanso na parede de casa
Acho que já nem conhece mais os caminhos que antes fazia!
…a xícara nunca mais viu o café!
Depois de alguns anos - virou caco no acaso
E Ana chorava…
Enquanto colhia os pedaços de suas lembranças pelo chão
Sua bambina cresceu,
E os doces já não têm mais as mesmas cores de antes…
Debaixo da amoreira, a sombra fresca era o meu prêmio naquele dia de sol. Ali, deitado com as pernas esticadas e os braços atrás da cabeça, eu descansava depois de colher as frutas, que deixavam uma tinta forte em meus dedos. Assim eu vivia a minha infância, colhendo amoras e brincando na terra à procura de tocas de coelho. Meu avô trabalhava na carpintaria que ele mesmo construiu. Um local cheio de ferramentas e todo tipo de bugiganga. Ficava ali durante horas, pregando e serrando todo tipo de madeira na construção de pequenos móveis para os vizinhos, e até que ganhava um bom dinheiro. Entre um descanso e outro, pitava um cigarro que ele mesmo enrolava, tomando suco de lima que minha avó fazia com muito carinho. Eu? Eu o ajudava às vezes, quando tinha de pintar alguma peça. Mas a minha diversão mesmo era brincar no quintal. Lá que eu era feliz. Bolinha de gude, pega-pega, futebol, subir nas árvores que rodeavam o terreno do meu avô. Quando a noite caía, ficávamos deitados no chão olhando as estrelas e contando histórias de fantasmas e heróis. Hoje, aqui nesta cidade grande e sem espaço, sinto falta do meu quintal e das brincadeiras, da minha infância e do suco de lima da minha avó. Hoje, posso apenas sonhar com tudo isso. Um doce e amargo sonho que ao mesmo tempo conforta e incomoda. O tempo passou para mim, mas a lembrança daqueles dias ficou. Não tenho medo do que virá daqui pra frente, pois onde eu estiver, comigo levarei a imagem do meu quintal dos sonhos.


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