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Pela janela vejo a noite escura e sombria. Não há lua no céu, o que torna a noite mais enigmática. Uma sensação estranha permeia os meus sentimentos. Não sei exatamente o que me deixa assim, mas faço uma idéia. A noite silenciosa me convida às reflexões, às vezes banais, às vezes existenciais. Nessas últimas é onde me perco. Mas também é onde tenho a oportunidade de sair desse marasmo.

Não sei como vim parar aqui. Essa cela abarrotada de gente, fria e fedida. Um lugar onde a gente se esquece quem é e das coisas que mais gosta de fazer. Ontem, ao menos, foi diferente. Sai. Não fisicamente, é claro. Viajei por mundos distantes. Consegui vislumbrar além desse quadro de alvenaria. Voei acima das nuvens. Explorei os mares e seus segredos. Conquistei riquezas que jamais sonhava em possuir. Enfim, consegui sonhar. Era um paraíso. Mas a realidade crua me puxou de volta e cá estou, acuado, fragilizado e sem esperança.

Não lembro o que houve. Só sei que entrei num bar para espairecer. Andava meio desconfiado. Já havia algum tempo parecia não ser eu mesmo. Algo diabólico me rondava. Mas naquela noite o meu destino estava selado. Só me vem à memória que vi uma amiga, a qual platonicamente eu namorava, acompanhada por um cara. Meu mundo caiu. Tomei umas seis doses e tudo de apagou. Dizem que foi medonho, bárbaro. Mas eu não fiz nada. Só lembro-me de ter acordado na delegacia. E depois, aqui. Jurei inocência, mas ninguém acredita e riem da minha cara dizendo que aqui todos assim se definem.

Depois de tantas tentativas, enfim, descobriram o verdadeiro assassino. Ou melhor, fizeram com que eu descobrisse. E ele não gostou. Disse que a culpa de o terem pegado foi minha. Jurou vingança. Disse que acabará comigo e que de hoje não passo. Tento lutar, mas já não tenho forças. Acho que será essa noite. Então, só me resta contemplar a noite escura e me despedir. Aqui não é lugar mesmo para pobres sonhadores. Eu seria devorado. Sem esperança é melhor deixar que ele tome o controle. Ele já é maior que eu mesmo e me engole aos poucos. Depois de ter “experimentado” o gosto do sangue, em vez de se arrepender, gostou. Tudo leva a crer que eu perdi essa batalha. Serei a próxima vítima de sua falta de escrúpulos. Somente mais uma dentre as inúmeras que acho que fará. Minhas forças somem e as dele, criatura maligna, crescem. Só queria ter tido mais tempo para lutar. Faltam poucos momentos de lucidez. Os últimos. Depois nem sei para onde vou. Serei apenas o reverso do espelho, a outra face, a do mal. A que se mostrou mais forte e que está prestes a cometer mais um homicídio. Já não há mais tempo. Adeus.

 

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