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Debaixo da amoreira, a sombra fresca era o meu prêmio naquele dia de sol. Ali, deitado com as pernas esticadas e os braços atrás da cabeça, eu descansava depois de colher as frutas, que deixavam uma tinta forte em meus dedos. Assim eu vivia a minha infância, colhendo amoras e brincando na terra à procura de tocas de coelho. Meu avô trabalhava na carpintaria que ele mesmo construiu. Um local cheio de ferramentas e todo tipo de bugiganga. Ficava ali durante horas, pregando e serrando todo tipo de madeira na construção de pequenos móveis para os vizinhos, e até que ganhava um bom dinheiro. Entre um descanso e outro, pitava um cigarro que ele mesmo enrolava, tomando suco de lima que minha avó fazia com muito carinho. Eu? Eu o ajudava às vezes, quando tinha de pintar alguma peça. Mas a minha diversão mesmo era brincar no quintal. Lá que eu era feliz. Bolinha de gude, pega-pega, futebol, subir nas árvores que rodeavam o terreno do meu avô. Quando a noite caía, ficávamos deitados no chão olhando as estrelas e contando histórias de fantasmas e heróis. Hoje, aqui nesta cidade grande e sem espaço, sinto falta do meu quintal e das brincadeiras, da minha infância e do suco de lima da minha avó. Hoje, posso apenas sonhar com tudo isso. Um doce e amargo sonho que ao mesmo tempo conforta e incomoda. O tempo passou para mim, mas a lembrança daqueles dias ficou. Não tenho medo do que virá daqui pra frente, pois onde eu estiver, comigo levarei a imagem do meu quintal dos sonhos.
Ela estava sentada a mesa da cozinha. Lia o jornal da manhã e ouvia os desaforos num canal qualquer. A televisão estava ligada para que um som ocupasse o lugar. O cão sentado ao lado, aguardava por um pedaço de pão. E ele comia bem mais que ela - que preferia saborear o chá quente na xícara. O pão era mesmo para o amigo de patas várias….
Ela não estava ali. Pensava em olhos que a faziam sorrir e em lábios que a enlouqueciam e se dedicava a rascunhos intensos e extensos. Era sempre assim. Ela pensava nele quando sentia saudades e o papel ganhava novos horizontes…
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Do outro lado do oceano, ele sentava-se a mesa para um lanche. Um filme sem graça na sessão da tarde preenchia a sua atenção. Do lado de fora a chuva parecia uma cançaõ a falar saudades em seus ouvidos… Por companhia, tinha apenas o cão. A casa estava vazia - calma demais - parecia gritar o nome dela pelos cantos…
Na mesa, alguns escritos , os óculos e o telefone que não tocava… Ele já confundia diversos sons com a campainha tão esperada. Ela não ligava…
Ele não estava ali. Pensava em olhos que o faziam sorrir e em lábios que o enlouqueciam e se dedicava aqueles escritos que ela sempre lhe enviava. Era sempre assim. Quando ele pensava nela, o horizonte daqueles rascunhos o alcançavam.


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