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Eu ainda não trabalho, portanto não sei o que é ganhar dinheiro com o suor do próprio rosto. Entretanto, estou cercado de pessoas que trabalham nas mais variadas áreas de trabalho. Algumas entraram na universidade, conseguiram um diploma e se especializaram naquilo que fazem. Outras aproveitaram um curso técnico, aprenderam o básico pra exercer certo ofício e foram à luta. E há ainda aqueles que passaram em concursos, os que são autônomos e os trabalhadores informais.
Bom, depois de dizer isso tudo, concluo uma coisa: trabalho não falta, ainda que haja tanta gente desempregada procurando um lugar na sociedade pra garantir o pão de cada dia. Trabalho - praticamente - não falta, mas de nada adianta trabalhar em algo que não se gosta.
Trabalho tem que ser algo que enleve a alma, que nos faz crescer constantemente e que nos ajuda a aprender um pouco mais. Se trabalha como datilógrafo - ofício nem tão mais necessário nos dias de hoje com o advento do computador e da impressora - tem que gostar de ficar sentado horas a fio na cadeira preparando determinado texto pra entregar segunda, terça, quarta. Se trabalha como, sei lá, banqueiro, tem que gostar de lidar com finanças, burocracia e daí por diante.
É claro que existem certas ocasiões e casos em que se trabalha por pura necessidade, pra alimentar o filhinho que tá esperando em casa por feijão, arroz e salada. Mas acredito eu, na minha santa inocência e imaturidade, que essas pessoas tenham o sonho de trabalhar em outros ramos, sob outras situações. E tem gente que persevera tanto e acredita que vai conseguir realizar-se e trabalhar naquilo que realmente deseja, que vai juntando - quando dá - o que vai sobrando do dinheiro que ganha, ingressa num curso ou num supletivo, completa os estudos e aos poucos vai construindo o que é necessário pra tornar viável o seu desejo.
Eu sei que não é fácil, mas sei também que não é fácil ter que bater ponto todo dia num escritório cheio de gente chata e ranzinza e sem prazer por aquilo que faz.
Estou lendo “O Lobo da Estepe” de Hermann Hesse e concordo plenamente com o que o Harry Haller acredita: de nada adianta simplesmente existir e deixar o tempo passar em branco. É importante colorir a vida com azul, verde, amarelo, rosa, roxo e mais cores que se queira. É importante não se deixar levar pelo simples cotidiano que massifica e amassa, e ir atrás da felicidade, da realização.
Tá, tudo bem, eu tenho lá minhas dúvidas quanto a felicidade. Mas não custa acreditar que dá pra chegar bem pertinho.
E realmente viver.
- Lunna, se achar que eu usei mal o espaço, fique à vontade pra fazer alterações ou pra me dar carão. Beijos e bom feriado.
Estrépito
Com estrépito
O homem deixa
De sonhar
O pássaro
Desaprende a voar.
3
O navio
Não via
O avião.
Gente
Na via
Ia
Mas não se via
Nem no navio
Nem no avião.
Só na navalha
Melhor se via
A gente que vai
A gente que ia.
4
Nada sei
Das vezes que sou.
Estou
: tudo que sei.
7
De madrugada
Vejo Deus
Dormindo
Em mim.
Lido com palavras como quem lida com cacos de vidro.
A dor que sinto em minhas mãos, o sangue que delas escorre, as feridas que pouco a pouco passo a carregar – nada importa.
É minha sina dolorosa, eternamente se cumprindo. E cumpro-a religiosamente, minuciosamente. Com a paciência de um monge e a resignação de uma montanha.
Escrever é minha única saída. Nem o amor se assemelha a tamanha tarefa. O amor, inclusive, parece menos importante quando se aproxima das letras. Eu, quando vou te dizer “eu te amo”, tenho que me reduzir a três palavras.
O problema não é da expressão em si: é do sentimento que é grande demais.
Então, pra poder dizer tudo, digo claro pra dizer escuro. Digo, digo, vou falando, mas o que realmente quis dizer foi aquilo que não disse. Só assim consigo capturar a real essência da minha mensagem.
Até a imagem, aquela minha velha amiga, vem se me mostrando incapaz. A dose é cavalar. O jeito é evocar silêncios. Dolorosamente.
Enquanto isso, deixo rastro de sangue pelo chão. Será a prova patente da minha existência. Há sangue em cada letra que deixo pra trás. Há sangue nas sentenças, nos parágrafos. Há sangue no conjunto do texto.
Hemorrágico, termino aqui a incessante tarefa da escrita. Porque só assim posso suportá-la: prevendo para ela um falso fim, um ponto final que se reveste de ponto, mas que é na verdade um abismo.
Ou dois pontos desejosos de continuação.
é mais medo
de olhar
e não ver
é mais medo
de jogar
e perder
é mais medo
de estar
e não ser
é mais medo
de errar
e viver.
- ficam aqui desculpas pelo meu sumiço.
Ela, se olhando no espelho.
Ele, sentado atrás na cadeira de vime.
Primeiramente a certeza do reflexo, cada um seu lugar.
Depois ela esmaece no espelho. Fita os borrões que outrora lhe pertenceram.
A imagem dele aumenta, a dela diminui, uma cabe na outra, depois a imagem dele engole a imagem dela.
Ele está no último volume, ela está em desespero. Ela foge em defesa de seu último vestígio.
I
Chamo, amo
: não obtenho
resposta
código
criptografada
Quem dera colher no ar
- quem dera brotar uma gota de orvalho.
II
Mato
o fato
Colho a notícia
III
Egito
ejeto
a jato.
Rejeito.
IV
Ana e Arlindo
(qualquer estrutura fragilizada)
pegam no ar
a previsão de sua morte.
Depois
Arlindo e Ana
Ele doente, ela sacana
Dois deuses bárbaros
Três filhos pequenos
E muita coisa a fazer.
1
Não sou faquir
Então meta sua faca
Fora daqui
2
A brisa vai por meu corpo
O tempo não, sai arrastando
O corpo no chão.
3
Primeiro se cria
Daí trabalho, trabalho
Mil vezes me atrapalho
Com a mesma poesia.
4
A moça ia perdendo
O pouco tempo que tinha
Se é que ainda há tempo
Pra se perder hoje em dia
Minha poesia não brinca
Carnaval na rua
Nem se fantasia
Fica em casa, descansando
Minha poesia não usa
Sombra azul nos olhos
Não muda o cabelo todo mês
E se veste como os demais
Minha poesia não ouve
Rock n’ Roll psicodélico
Não viaja no espaço sideral
Minha poesia só quer sossego
Rejeita drogas lisérgicas
Não cabe nos estilos
E, definitivamente,
Não pretende virar hippie
Minha poesia não serve
Ao gênio bem-estudado
Nunca foi batida
No liquidificador
Minha poesia-monolito
Vai na contramarcha
Choca o senso
Que de tão diferente
Padronizou
Minha poesia não pode
Ser presa na gaiola-rótulo
Fatalmente voa
Em busca de si
Minha poesia vai dormir
Longe disso tudo
Explodirá em mil orvalhos
Brotando fresca manhã.
Tenho um segredo.
Antes que eu morra, devo partilhar que tenho um segredo. Não se trata da minha idade ou do que eu fiz ontem e anteontem. É algo que se faz presente. É algo que não morre – nem com o tempo.
Eu vejo e eis o que vos digo. Eu simplesmente vejo. E eu que pensava que tinha três olhos cegos: é que eu não aceitava o que me era mostrado. Mas agora que até a morte me cabe e que até a morte eu entendo e sinto – a imagem que meus três olhos concebem é verossímil.
Eu vejo aquilo que o olho comum não capta: disso se constitui meu crime. E ninguém é capaz de ver na intensidade em que vejo. É mais. É além. E aqui estou eu no meio da noite tentando vos explicar meu segredo – que pra mim é tão simples e tão sofrível. Mas que por ser aquilo que ninguém vê, eu não encontro palavras.
E se vos revelasse o conteúdo de minhas visões espectrais? Ainda assim, faltaria. Porque o que vejo é impalpável e está além da concepção humana de coisas tangíveis.
É como ouvir o silêncio, o zunido insistente e inercial do silêncio. Ele sempre esteve ali – por isso nós, seres humanos, não pudemos captá-lo. Somos atentos às mudanças. Não ao que sempre está. E essa é a nossa imperfeição. E mais: por isso estamos longe de realmente entender o que é felicidade.
Sinto frio e fome: eu que me cerco nesta ilha, vendo-os de cima do meu pedestal – mas só. A solidão é o preço ingrato que a montanha paga. A paz é pesada. Mas cansei de estar só: e eis o motivo pelo qual grito.
Quero agora não a compreensão que não escolho, a compreensão que me fere desde que nasci. Eu quero um amigo: alargar este entendimento e saber em quem meu grito encontra a sua ressonância. Algo dentro de mim me diz que do outro lado do mundo existe alguém sofrendo de inerência.
E cá estou, ansiosamente esperando.

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