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Ao ouvir o escrivão disse:
- Não estou interessado.
E saiu chutando a porta do cartório.
‘Seu’ Nésio só teve tempo de segurar ‘Dona Vida’ nos braços antes dele mesmo cair sentado numa cadeira ao lado da escrivaninha.
Do lado de fora os desavisados cidadãos Pardienses nem se deram conta do homem que saía aos berros de lá de dentro.
- Não estou interessado! E esmurrava o ar como um Pelé depois do gol.
Já se foi o tempo em que nessa cidade as coisas aconteciam porque tinham de acontecer.
E também já se foi o tempo em que os amantes não podiam decidir quem deveriam amar de verdade.
Do outro lado da rua Soriano já esperava por isso, e não pensou duas vezes quando viu o amante sair gritando. Atravessou a rua, entrou no cartório e disse ‘sim’ na frente do juiz e da noiva Margarida.
Agora não havia mais motivo para vergonhas e outras sensações mais fortes, a coisa estava feita.
Mas isso foi há uns seis anos atrás. Hoje Hugo e Soriano são um casal muito feliz, e Margarida apaixonou-se por Iara, a escrevente do cartório.
O Padre Jorgino nem acha mais estranho essa mania de se amar a quem se quer em São Pardinho.

Hoje
Comemos a carne
Comemos as vestes
Somos antropófagos
Carnívoros devorando a vida.
Hoje
Somos miseráveis
Das idéias
Dos sentidos
Da futilidade.
Cérebros devorando mentes.
Hoje
Matamos os deuses
Outrora louvados
Antes adorados
Para sempre odiados.
Hoje
Não há motivos
Nem desculpas sinceras
Não há caminhos
Ou ruas seguras.
Amanhã
Nada restará
Das almas que devoramos
Dos homens que ignoramos
Dos deuses que matamos
Das vestes que nos abrigavam
Do frio gelado de nossa própria consciência.

Procuramos sentido nas coisas, procuramos dar sentido às coisas.
Ao acordar muitos abrem os olhos, mas poucos são aqueles que conseguem enxergar.
O outono que nos invade é um lugar intranqüilo, cinza e sem sentido, de onde fugimos sempre.
Uma vida filosófica ou uma estação de trens não fazem sentido quando não entendemos seus mecanismos, e é essa viagem feita da janela, onde deixamos para trás paisagens e amigos que nos torna desatentos e aflitos com relação ao sentido das coisas.
A vida é em muitos sentidos - e cantos escuros - uma metáfora, um enigma: Decifra-me ou te devoro! Conhece a ti mesmo!
Realmente há sentido nas coisas?
Há sentido em procurarmos o sentido das coisas?
Há coisas sem sentido que nos trás valores e experiências arrebatadoras.
Então viver é assim: uma aventura e uma desventura; um seguir e um deixar ir…

Porque Ser não é uma questão de escolha. Ser é arma encostada na cabeça. É não se importar. E tarde demais o tempo se vai – um adeus a todos sem lágrimas. Porque Ser é não querer morrer – deixar-se ir é pior. Ser é vestir-se de desejos, anseios, conselhos, desesperos, infância, vestidos de algodão, malha fina, lã da china. Porque Ser é apertar olhos como uva, dentes na carne-maçã. Vista-se do que é pior. Vista-se do suor. Vista-se das lágrimas. Da maneira que ninguém se importa. Vista-se da ‘rosa’ que não escolhe sua cor. Porque Ser é questão de relógio – é um tempo perdido! Vista-se sem se deixar cobrir. Vista-se do vento e do sustento, do morno e do quente, de ninguém. Vista-se de gente. Porque o que se procura no final do dia é mais tempo. Porque se é uma questão de escolha, que se escolha o que não se pode desistir!

Não era um poema – versos tortos – no sentido técnico da palavra. Também não eram versos – poesia vazia – se um poeta os lê-se. Era sim um lamento – não um lamento de amor – mas quase uma ode à loucura e a dor.
O fato é que as letras estavam lá – não só letras – mas o sentido e o sentimento de cada palavra. Era como um perfume que roubava o ar e asfixiava quem o percebesse.
Ironia, pois sua vida sempre foi um romance no sentido técnico da palavra. E como escritor, era o melhor autor de suas próprias desventuras.
E foi num momento – no intervalo - que tirou a própria vida para vencer o medo da morte.
Não era – nem foi – um herói no sentido mítico da palavra – viveu suas aventuras como um coadjuvante à espera do papel principal. Morreu no final como fazia com seus melhores personagens.
Não era um livro – no sentido de obra literária – mas tinha lá suas notas de rodapé, onde explicava que o conteúdo não vale nada sem uma premissa.
Afinal aquelas linhas não falavam de um conto – ou uma crônica diabólica – nem contavam a sua própria história: era apenas quase um poema!

Hoje se falsifica de tudo, até batatas fritas! E não há nada que eu ou você possa fazer para mudar isso.
Falsificam-se remédios, atestados médicos, pulseiras de campanha sociais.
Falsificam-se idéias.
Mas a única coisa que não se falsifica é a mentira
Falsificam-se brinquedos, utensílios, ferramentas, alimentos.
Falsificam-se sentimentos.
Mas a única coisa que não se falsifica é a vergonha.
A mentira não passa pelo crivo da consciência, que julga e condena.
Será que somos todos corruptos ou desavergonhados?
Falsificam-se votos, dinheiro, passe de ônibus, óculos de sol.
Falsificam-se direitos e deveres.
Mas a única coisa que não se falsifica é a moral.
Falsificamos ideologias, mundos perfeitos, sociedades igualitárias.
Somos assim, propensos a todo tipo de doença, inclusive a da falsa coragem.
Hoje se falsifica de tudo, linhas de pesca, cds e dvds, textos literários.
Perfis de Orkut e Blogs!
Só não se falsifica a discórdia.
O autor deste texto também foi falsificado, senão, que sentido teria tudo isso?

Aqui estou eu em teu peito
Mas não se perca ao entrar em meu mundo.
Você pode fugir
Mas não há como eu não te encontrar.
Meu caminho, feito de esquinas,
Perde-se em tuas curvas.
Momentos fartos de desejos,
Acumulam-se debaixo de nosso travesseiro.
Mas não há como não seguir em frente.
Se só o teu desejo me move,
Alimenta,
Constrói,
Invade,
Desfaz as dúvidas,
Cresce nas incertezas
Vence as diferenças.
Aqui estou eu em teu peito
A pedir de alimento
A tua vida!
E a dar a minha…

PARA ANDRÉIA

Sem chão,
Sem teto,
Sem paredes,
Sem mistérios,
Sem vergonhas,
Sem impossibilidades,
Sem desculpas,
Sem arrependimentos.
Sem chão não podemos traçar caminhos,
Sem teto não podemos olhar para algo acima de nós,
Sem paredes não podemos nos sentir protegidos,
Sem vergonhas não podemos nos governar,
Sem impossibilidades não podemos nos impor limites,
Sem desculpas não podemos ser humildes,
Sem arrependimentos não podemos aprender com os erros.
De todas as maneiras, atribuímos valores àquilo que nos transforma.
De todas as maneiras, construímos castelos com palavras.
De todas as maneiras, somos mais do que aquilo que possuímos.

Esse é mais um texto daqueles que você dirá:
- Mas que papo é esse?
Na tela do seu computador, 800X600 vezes você me lê, 1024X768 vezes você decide o que ler ou não, mas isso não importa e nem é importante agora.
O que está implícito no fato de você estar aqui é um impulso livre - todos são - uma escolha – mesmo que seja inconsciente, um clique errado no mouse ou curiosidade literária.
Mas, você já se deu conta de por que está aqui?
Ache um sentido para tudo isso…(tempo)

Achou?
Ok! Você nem pensou nisso, não é?
Que mecanismo é esse que nos conecta?
É a “simpaticidade recíproca”.
Não me pergunte o que é, acabei de inventar este termo.
Heidegger entre outros, até Freud inventaram termos também…
Essa simpaticidade entre leitor e escritor…
…um completa o outro!

Debaixo da amoreira, a sombra fresca era o meu prêmio naquele dia de sol. Ali, deitado com as pernas esticadas e os braços atrás da cabeça, eu descansava depois de colher as frutas, que deixavam uma tinta forte em meus dedos. Assim eu vivia a minha infância, colhendo amoras e brincando na terra à procura de tocas de coelho. Meu avô trabalhava na carpintaria que ele mesmo construiu. Um local cheio de ferramentas e todo tipo de bugiganga. Ficava ali durante horas, pregando e serrando todo tipo de madeira na construção de pequenos móveis para os vizinhos, e até que ganhava um bom dinheiro. Entre um descanso e outro, pitava um cigarro que ele mesmo enrolava, tomando suco de lima que minha avó fazia com muito carinho. Eu? Eu o ajudava às vezes, quando tinha de pintar alguma peça. Mas a minha diversão mesmo era brincar no quintal. Lá que eu era feliz. Bolinha de gude, pega-pega, futebol, subir nas árvores que rodeavam o terreno do meu avô. Quando a noite caía, ficávamos deitados no chão olhando as estrelas e contando histórias de fantasmas e heróis. Hoje, aqui nesta cidade grande e sem espaço, sinto falta do meu quintal e das brincadeiras, da minha infância e do suco de lima da minha avó. Hoje, posso apenas sonhar com tudo isso. Um doce e amargo sonho que ao mesmo tempo conforta e incomoda. O tempo passou para mim, mas a lembrança daqueles dias ficou. Não tenho medo do que virá daqui pra frente, pois onde eu estiver, comigo levarei a imagem do meu quintal dos sonhos.

Digitei a primeira letra e logo se fez a palavra. Digitei a primeira palavra e logo surgiu a possibilidade de uma frase. Digitei a primeira frase e logo teria uma linha inteira. E então essa possibilidade me assustou. Não a possibilidade de criar uma palavra ou uma frase, mas a possibilidade de criar uma história.
Mas não queria parar. E decidi não colocar ponto, mas uma vírgula. Porque naquele momento uma vírgula era a palavra mais forte que eu poderia dizer a todos. Uma vírgula tem uma possibilidade.
A possibilidade de uma intenção claramente exposta: de que não acabou.
Digitei a segunda linha e não queria parar! Teria eu outra escolha quando escolhi não parar?
E então se fez o verbo e as possibilidades se multiplicaram,

Sabia que não era grande coisa, amparava-se na própria mesquinhez. Dizia-se um poeta – palavras tolas – mas discriminava a si mesmo.
Sabia que não valia coisa nenhuma ou alguma coisa que faltava o valor. Mesmo assim era rico de prosa e conversa.
Escrevia em letras tortas e frases falacianas a sua própria biografia. Era ‘o poeta’ moribundo – certo de suas honrarias. Mas a vida é cobertor curto.
Correu com o tempo para chegar à frente – tolice – o destino não tem patrão.
Ouviu dizer-se – ele mesmo assim falou: fui chegar mais cedo para ver-me de frente e sem máscaras.
Mas esquecia que era ídolo e platéia ao mesmo tempo.
Ficou mudo diante de suas próprias perguntas sem respostas. Então eu pergunto onde está o poeta? Onde se esconde em cada um esse ‘motivo’ que rima nossa alma com as letras?

Leia também em:
Mostra Plural
Fábrica de Histórias
Manufatura

 

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