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Um pouco tardio, mas reproduzo aqui um poema que fiz ano passado em homenagem às mães. Só um pouco do que se pode dizer delas, as quais têm não só um dia como seus, mas todas as manhãs, sejam elas cinzentas ou avermelhadas pela imponência do sol.

 

 

 

Mãe verdadeira

 

A mãe de verdade não começa quando dá a luz

Não surge assim do nada

Tropeçando pelos cantos

Tresloucada e desvairada

Caindo nos braços da maternidade

É um estado de espírito que começa quando ela nasce

 

A mãe de verdade não só consola o filho

Ela chora a cada choro

Sorri a cada riso

Embala seus nenês

Mesmo que esses já tenham os seus

E festeja a cada conquista deles

Mesmo que eles não lhe chamem a comemorar

 

A mãe de verdade não deixa de ser mãe

Nunca!

Mesmo que os filhos a esqueçam

Mesmo que ela vire avó, bisavó ou tetravó

Mesmo que ela já não exista

Mesmo que esteja sempre presente

 

A mãe de verdade é uma divindade

Que transcende a figura que a representa

Mas que carrega as agruras dos sentimentos

As vibrações das vitórias e do sucesso

Que se completa com o que retira dos outros

Que adormece com um fardo nas costas

E desperta mais leve que a pluma

Pronta a passar por tudo novamente

 

E assim é a mãe verdadeira

A que tudo dá e nada exige

A não ser pedir que Deus cuide dos seus

A que ri com o riso dos filhos

E chora por todos eles

Que empresta seu ombro, sua mão, seu braço

Seu colo, seu coração, seu tudo

Só para ver florescer e brotar

A esperança nos olhos de sua prole

Só para contagiar, nem que por um instante,

Os corações dos que convivem com ela

Ou que com ela passam os mais ínfimos segundos

 

A mãe verdadeira é parceira

Dos pais

Dos filhos

De Deus

Da Virgem Maria

De todas as marias

De todas as anônimas que dão a vida

E que à vida trazem seus rebentos

Ou se arrebentam para criarem condições

E nunca deixarem faltar nada às suas crias

Nem na mesa nem no coração

 

As mães verdadeiras se orgulham por serem assim

Quando rezam, lembram de todos

E pouco pedem para si

Dessa forma, jamais deveriam cair no esquecimento

Mesmo que elas já não se lembrem bem das coisas

Elas merecem receber da vida (e de todos)

O que oferecem naturalmente a qualquer um

Atenção, carinho e amor

 

 

Manoel Gonçalves

As coisas que acontecem no dia-a-dia, de alguma forma, alegre ou triste, mexem com a gente e influenciam pensamentos e atitudes e tudo que deles resulta. Fiquei muito comovido com todos os fatos envolvendo criança (desde o caso de tortura até o mais chocante e enigmático, que é o caso da garotinha). Não quero ser sensacionalista, nem pregar a culpa de X ou Y. O que anda acontecendo com a criançada é de um absurdo tão grande que o mais importante é que as pessoas envolvidas nos diversos casos sejam punidas, sejam quem for.

Escrevi algumas palavras que podem servir a qualquer pequenino que, por algum motivo, não está mais por aqui para nos ensinar como aproveitar a pureza e a alegria.

 

Algumas palavras

 

Sabe aquela menina

Já não mais ri

Não mais pula e brinca

Não mais encanta a casa

 

Aquela menina

Que sorria para a câmera

E girava em torno do corpo

Agora está parada

 

Foi dançar em outro lugar

Brincar com as nuvens

Viajar longas distâncias

Esbanjar de ser criança

 

Aquela menina sorridente

Só não merecia em tão pouca idade

Sair do mundo de repente

Vítima de tamanha crueldade

 

Agora brinca, menina

Sorria seu riso mais gostoso

E quem se comoveu aqui fica

Indignado pedindo justiça

Rezando para que seja capaz

De enfim descansar em paz

 

Abraços.

Nem tudo que escrevo

É o retrato do que sou

Nem tudo que penso

Revela minha essência

Nem tudo que faço

Pode me elevar ou condenar

Nem tudo que digo

Sai exatamente como quero

Nem tudo que respiro

É ar ou muito menos saudável

Nem tudo que bebo

É insípido e inodoro

Nem sempre encontro comigo mesmo

Mas estou em tudo que faço

Em cada pensamento vago

Do riso amarelo ao amor declamado

Estou em cada uma dessas coisas

Que não têm tudo exato

Mas refletem a colcha de retalhos

Que representa uma pessoa

E os pedaços juntados numa jornada inteira

Manoel Gonçalves

 

Joana desligou o chuveiro, se secou e vestiu o roupão de seda. Pegou o creme hidratante, o espelho oval que fazia par com a escova de cabo trabalhado, presentes de seu amado marido Valter (juntamente com o roupão, onde estava envolvido também um bilhete com os dizeres: “para que fique ainda mais encantador o seu ritual de beleza, o qual me deixa qual poeta a admirar a sua musa lua”). Ela sentou-se em sua cama, levantou a perna esquerda, permitindo que o roupão se entreabrisse e revelasse parte de suas curvas, e lentamente iniciou a sua massagem de hidratação.

 

Valter poderia muito bem se oferecer para fazer aquilo, como de fato fizera algumas vezes, mas o ritual todo o fascinava, era como assistir o nascer do sol na colina, não tinha nada a fazer a não ser admirar o acontecimento natural, a beleza do momento. Ela só olhava de canto de olho e sorria. Era como o brilho do sol a se espalhar na planície. Valter saboreava cada segundo. E assim se seguia até todo o corpo exalar o perfume adocicado do creme. Porém, o ápice era ver Joana pentear o cabelo. Era tão meiga em suas ações que fazia daquele instante algo sublime. Nem uma sereia de verdade seria capaz de enfeitiçar um homem daquele jeito. Ela parecia irradiar, sua aura poderia iluminar o quarto. Era um esplendor. E ele, como marujo em transe, se encaminhava para o seu mar, onde se agarrava ao corpo dela e já não via mais nada, era presa fácil envolta em seus braços, inebriada em seu perfume, sua pele, seu rosto e seus cabelos. Adormecia nos braços de Joana ou agarrado a ela, como se não quisesse que aquele instante tivesse fim.

 

Não era um ritual de toda noite e nem sempre ele estava lá para assistir, pois às vezes chegava mais tarde do trabalho. Nesses dias, ela se aprontava toda e ficava a esperar, mas ainda deixava para escovar o cabelo um pouco antes de dormir, só para que ele visse. Não era nada extraordinário, mas era algo que o deixava contente e para ela já bastava.

Porém, um dia, ele não chegou. Ela esperou em vão. Embora soubesse do acontecido, do acidente que o levara, Joana ficou por um tempo fazendo aquele mesmo ritual, deixando perto da cabeceira da cama o espelho e a escova, esperando que ele aparecesse de uma hora para outra e pudesse espiá-la novamente.

 

Os anos passados fizeram de Joana uma mulher mais conformada com o que se sucedera. A escova foi guardada na gaveta, enrolada junto com o espelho num lenço de Valter. Os cabelos branquearam e ficaram mais ralos. A pele já não tinha mais o mesmo viço. As marcas no rosto não escondiam, porém, a alegria da vovó Joana em abraçar e apertar o netinho Valtinho ao fazer suas vontades.

 

Mas nesta noite a lua brilha imponente no céu. Não há nuvens. Ela parece estar com o dobro do tamanho. Joana toma seu banho, se seca e veste o roupão. Vai para o quarto, abre a gaveta e pega a velha escova, cuidadosamente preservada. Já não tem mais a mesma elasticidade, mas ainda assim faz o seu rito de beleza. Penteia os cabelos prateados e deita-se. Coloca a escova e o espelho ao seu lado e fica esperando. Ela sabe que esta noite ele vem. Valter voltará para admirar sua musa e novamente se emaranhar em seus braços. E depois colocá-la em seus braços, esperando que ela finalmente adormeça com um delicado sorriso na face.

 

 

 

 

 

 

Quero um olhar diferente

Daquele que olha ao longe

E vê os pássaros voando

As folhas das árvores cantando

Balé de flores do campo

Sinfonia da água em cascata

Quero olhar para o céu

E ver a luz transpondo as nuvens

Sentar na relva úmida

Flutuar no vento vespertino

Observar o pôr-do-sol

E saber que depois dele

Nada mais é o que era

Já não há mais pássaros

Não se vê mais árvores

Muito menos montanhas

Rios ou cachoeiras

Flores e relva são meros rabiscos

Tudo perde seu significado

São simples silhuetas estranhas

Peças do mesmo cenário

Formas negras interessantes

Num fundo alaranjado

Elementos gráficos

De um belo quadro

Pelo grande Mestre pintado

Manoel Gonçalves

Hoje não tenho quase nada a escrever, quase nada a dizer. Não sei o que sentir. Já rabisquei tantas coisas no caderno. Sentimentos, impressões, sensações, medos, projetos, sonhos… Rabisquei palavras e rabisquei lembranças. Mas apaguei todas elas. Não queria ler os garranchos do passado distante, de quando era garoto, entende, nem ver para onde se dirigia o próximo traço. Só sobraram manchas, borrões de lápis e muita, muita sujeira. Assopro o papel, é hora de se livrar dessa imundice. Quem sabe tentar escrever algo novo, algo diferente do que estava ali rabiscado. Rasgar as folhas amassadas e pegar papel novo. Quem sabe enxergar com outros olhos e contar coisas de maneiras diferentes. Como um autor de novela que espera o desenrolar da história e a reação do público para saber o que escrever e ver para onde levar a história, escrevo as primeiras linhas e fico a examinar, esperando que uma voz de dentro me diga se está bom e se devo continuar. Não tenho muito o hábito de escrever mesmo. Só achei que devia colocar algumas coisas no papel. Sei lá, de repente, antes que algo aconteça. Semana passada morreu o meu camarada. O cara também cuidava de umas garotas daqui da zona. Dizem que foi vingança ou porque mexeu com alguém. Sei lá. Essa “profissão” é assim mesmo. É difícil chegar a chefe, dono de casa. Sei lá se pode acontecer alguma coisa comigo. Eu só queria fazer as ”memórias”, dizer o que fiz, de onde saí (embora eu não seja o que esperava, mas tá valendo), mas tem muita coisa que eu não gosto, então, acho que vou inventar um pouquinho. Assim eu pareço um bacana saído de filme. hehehe. Droga, essa iluminação é péssima. Mal consigo enxergar o que está qui na folha. Também o que se poderia esperar de um quarto de pensão de quinta, sujo, mal-cheiroso e usado pelas prostitutas da esquina. Mais caro que isso eu não consigo tirar o meu, né. E aí, fica difícil trabalhar porque a concorrência é sem igual.

O sussurro na calada da noite chegou sorrateiramente aos seus ouvidos. Aquela voz, aqueles poemas, aquelas obscenidades… tudo conhecido e há muito não ouvido mais. Seria um delírio ou um sonho? Estaria ele escutando mesmo a rouquidão daquela voz suave e provocante a rondar sua nuca novamente. Ele nunca fora chegado a afetos demasiados banais para a sua criação e conduta de homem de negócios. Ah, mas com ela foi diferente desde o começo. O encontro na fila do cinema, os dois solitários (ela acabara de tomar um majestoso pé na bunda e ele sem expor suas emoções. Mas um esbarrão na saída da lanchonete e pipocas para todo lado foram o suficiente para marcar o início de um romance ardoroso, arrebatador e cheio de situações ousadas que ruborizavam as pessoas presentes, haja vista que o fato de ser local público ou privado nunca foi empecilho para ambos. Mas agora tudo era fumaça. Coisas que se desfiguram na névoa. A não ser quando a saudade derruba e o tédio arma o terreno para sentimentos de arrependimento e súplica. Nesses momentos, até um cheiro de ovo frito pode desencadear lembranças fortes. Ela era muito prendada na arte culinária e ele achava isso ótimo (o ovo era pedido especial dele para tomar o café da manhã). Mas sua paixão por gastronomia a aproximou de um chef francês que fazia algumas palestras no Brasil. O comunicado veio de forma simples, mas o corte que deixou foi profundo. Ele ainda não cicatrizou. E agora que a voz ecoava em seu ouvido, como um mantra do amor, ele revivia cada alegria e cada dor. Deu um salto e correu para o interruptor. Nada, nem sinal de qualquer vestígio dela. O jeito era se entregar às pilhas de papel dos relatórios e curtir a fossa ali mesmo ou socado num boteco qualquer. Quem sabe poderia pintar alguma coisa? Um esbarrão, coisas caídas, um jantar (desde que não fosse francês, é claro). O sussurro? Quem poderia ser? Ah, esquece, aquilo foi só um delírio de sua mente cansada, comprometida pelo álcool, e de sua paixão não correspondida. Os ecos eram de sua própria voz gritando para sua alma e vontade de viver esquecerem as mágoas e voltarem à vida.

A todos os leitores e integrantes do Livro Aberto, peço desculpas por não ter feito o post no sábado. Assim como peço licença à Lunna por fazê-lo hoje, mas como percebi que o dela não entro no ar, resolvi colocar este aqui. Se invado o seu espaço, cara Lunna, desculpo-me de antemão. Abraços a todos. 

De repente

De repente me deu uma saudade

Mas de algo que não vivi

De repente me deu um medo

Mas daquilo que eu desconheço

De repente me senti aliviado

Mas ainda não sei o porquê

De repente sai por aí

Mas completamente sem destino

De repente eu me vi perdido

Mas eu nem sabia para onde ia

De repente encontrei você

E aí… Ah, aí tudo fez sentido

A saudade, o medo, o alívio

Sair por aí, ficar a ver navios

E olhar para o horizonte

Encontrar o sol nascendo em seu sorriso

O raiar do dia em seus olhos

E o recomeço a cada beijo seu

De repente eu me senti feliz

E vi que os repentes dessa vida

Por mais repentinos que possam parecer

Fazem sentido um dia, assim, de repente…

Manoel Gonçalves

Sob minha janela

Correm águas cristalinas

E quem se banha nelas

Amor dos seus olhos mina

 

Sob minha cama

Correm águas musicais

E o som que delas emana

Acalma a dor dos meus ais

 

Sob meu corpo quente

Correm águas agitadas

Nutrem de vida a mente

Com suas idéias aladas

 

Em minha alma inquieta

As águas que tanto escrevi

Carregam sentimentos de poeta

Emoções diversas que vivi

 

Manoel Gonçalves

Pela janela vejo a noite escura e sombria. Não há lua no céu, o que torna a noite mais enigmática. Uma sensação estranha permeia os meus sentimentos. Não sei exatamente o que me deixa assim, mas faço uma idéia. A noite silenciosa me convida às reflexões, às vezes banais, às vezes existenciais. Nessas últimas é onde me perco. Mas também é onde tenho a oportunidade de sair desse marasmo.

Não sei como vim parar aqui. Essa cela abarrotada de gente, fria e fedida. Um lugar onde a gente se esquece quem é e das coisas que mais gosta de fazer. Ontem, ao menos, foi diferente. Sai. Não fisicamente, é claro. Viajei por mundos distantes. Consegui vislumbrar além desse quadro de alvenaria. Voei acima das nuvens. Explorei os mares e seus segredos. Conquistei riquezas que jamais sonhava em possuir. Enfim, consegui sonhar. Era um paraíso. Mas a realidade crua me puxou de volta e cá estou, acuado, fragilizado e sem esperança.

Não lembro o que houve. Só sei que entrei num bar para espairecer. Andava meio desconfiado. Já havia algum tempo parecia não ser eu mesmo. Algo diabólico me rondava. Mas naquela noite o meu destino estava selado. Só me vem à memória que vi uma amiga, a qual platonicamente eu namorava, acompanhada por um cara. Meu mundo caiu. Tomei umas seis doses e tudo de apagou. Dizem que foi medonho, bárbaro. Mas eu não fiz nada. Só lembro-me de ter acordado na delegacia. E depois, aqui. Jurei inocência, mas ninguém acredita e riem da minha cara dizendo que aqui todos assim se definem.

Depois de tantas tentativas, enfim, descobriram o verdadeiro assassino. Ou melhor, fizeram com que eu descobrisse. E ele não gostou. Disse que a culpa de o terem pegado foi minha. Jurou vingança. Disse que acabará comigo e que de hoje não passo. Tento lutar, mas já não tenho forças. Acho que será essa noite. Então, só me resta contemplar a noite escura e me despedir. Aqui não é lugar mesmo para pobres sonhadores. Eu seria devorado. Sem esperança é melhor deixar que ele tome o controle. Ele já é maior que eu mesmo e me engole aos poucos. Depois de ter “experimentado” o gosto do sangue, em vez de se arrepender, gostou. Tudo leva a crer que eu perdi essa batalha. Serei a próxima vítima de sua falta de escrúpulos. Somente mais uma dentre as inúmeras que acho que fará. Minhas forças somem e as dele, criatura maligna, crescem. Só queria ter tido mais tempo para lutar. Faltam poucos momentos de lucidez. Os últimos. Depois nem sei para onde vou. Serei apenas o reverso do espelho, a outra face, a do mal. A que se mostrou mais forte e que está prestes a cometer mais um homicídio. Já não há mais tempo. Adeus.

 

Maio 2008
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