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Janela Aberta

Um olhar que se perde,
…em meio a paisagem da cidade!
Onde o vai e vem de pessoas,
é feito brisa por entre as folhas!
A pressa?
Acumula-se pelas muitas esquinas,
que se perdem na sola dos pés!

E tudo parece estar…
Sobre o controle ausente,
de um Deus a quem não se reza!

Falta silêncio nas horas do dia,
Falta quem aprecie o desenho,
…que se forma pelo caminho!

Linhas e contornos,
cheias de breve vazios!
E lá vai o desavisado,
…falar mal de tuas linhas!

Cidade suja…
Gente esquisita!
Malditos paulistas já dizia Mário!
E mais adiante,
…cospe alguém,
pelo meio do caminho!

Essa cidade é um mundo insólito
Onde o passo descobre diferentes direções!
Aqui, a ilusão se impõe…
O artista faz sua arte num canto qualquer
…a mulher vende seu salgado na fila do ônibus
O malabarista perde o equilíbrio entre um carro e outro
…o ciclista passeia pela rua como ilustre convidado
O motorista reclama junto com a sua buzina
E o tempo dá corda nas ações humanas!

E eu, distante de tudo
Esqueço minha janela aberta,
Espero tua noite chegar!
Tento não te desconstruir
…tento enxergar apenas tua realidade!

Então…
Te reinvento
…não te faço mais nem menos
Te faço cidade!
Com teus erros e acertos!

Créditos da Imagem. Poeta da Lua

Noite molhada
…com espasmos de outono
Nós duas tramando segredos
…ensaiando passos
Buscando sombras na negra paisagem
A noite lenta
…tecendo silencios ao redor dos olhos

Janela aberta,
vento que serra…
Vapor do chá misturado em linhas,
…compassadas de silêncio.
Horas passadas, sombras mutáveis…
As letras escorrendo, pelas janelas do tempo

O movimento do corpo entoa uma dança
…na solidão dos ponteiros
O sorriso interpreta a lembrança
E o verso ganha forma em ousadias suas e minhas
… miragens que se diferem em traços e retas

E a noite lá fora segue pedindo uma xícara de chá!

sorrisos descobertos…
Letras entrelaçadas,
um pedaço de chocolate na mão…
E as linhas voando em todas direções
A paisagem é a saudade…
Inspiração das noites claras

E as lágrimas escorrem na vidraça
pelo lado de fora!
Enquanto os lábios murmuram uma saudade!

O oceano se faz lá fora…
Medos desfeitos e as páginas preenchidas…
Páro e olho a ebulição de minha xícara,
saudades da vida…

Poema escrito a duas mãos
Autoras. Letícia Coelho e Lunna Guedes
Noite de Sábado - 19/04/08 - 20h10minutos.

*****

Leia também.
- A chegada das letras no Brasil (Nossa Via)
- Literatura Jesuíta (Nossa Via)
- Conto. Retalhos ( Blog Acqua)

Uma saudade no Bolso…

paisagem

Poema 06

Seu Américo sempre chegava em casa
com sua pasta preta - com zíper no meio!
…abandonava o chapéu sobre a mesa
Sabendo bem que Ana iria com ele ralhar!
“Papai, tem lugar na porta de entrada!”
É claro que ele sabia,
…mas não era a mesma coisa!
Tão distante era a bendita porta,
…e ali – abandonado na mesa
A mão poderia buscá-lo a qualquer momento!
Antigos hábitos não somem no acaso…

Na pasta preta de zíper no meio,
…guloseimas para a sua neta
Que já sabia dos “presentes”
E esperava pelo chamado sorrateiro
Ana de novo ralhava:
“Papai, você está acostumando mal a menina!”
Ele abria o sorriso amarelecido
E de rabo de olho espiava a menina,
sair correndo com os doces para o quintal!

A menina nunca gostou de doces,
…mas aqueles trazidos pelo seu avô:
Que gostosura abrigava todas aquelas cores,
…amarelo, laranja, vermelho!

Na cozinha, ele provava do almoço
E Ana ralhava de novo.
Já era costume…
Vovô ”roubava” café do bule
Na xícara que ficava no canto da cristaleira
Era dele e ninguém punha a mão
Ouvir reclamações de Ana
…Só mesmo o vovô gostava,
Que ao ouvi-las lembrava sua “velha” querida
E ele saia sorrindo com suas lembranças no bolso…
Procurando-me e sussurrando meu nome pela casa!
O vento fazia isso bem mais alto que ele!

Vovô Américo andava pelas ruas na sua “magrela”
…vinha de longe – sem pressa!
Dizia que contava as pedras do chão
…vovô era homem forte
Tinha os anos vividos,
Talhados na carne da face
Tomava gema crua antes de o sol nascer
E antes mesmo já estava pelas ruas sem pressa
…com sua “amiga magrela”
Dizia ele que contava as pedras do chão!

Vovô sabia de quase tudo!
e sabia também que a gente dá cordas nos ponteiros do mundo!
E de repente - vovô não mais abandonou o chapéu sobre a mesa
…Ana chorava ao olhar a porta da entrada!
Por onde ele já não mais passava…

A velha magrela encontrou descanso na parede de casa
Acho que já nem conhece mais os caminhos que antes fazia!
…a xícara nunca mais viu o café!
Depois de alguns anos - virou caco no acaso
E Ana chorava…
Enquanto colhia os pedaços de suas lembranças pelo chão
Sua bambina cresceu,
E os doces já não têm mais as mesmas cores de antes…

porta aberta

Ela abriu a porta e se perdeu lá fora…
Seus pés não alcançaram nada - não saíram do lugar.
Ficaram ali, na soleira da porta aberta.

Seus olhos, contudo, mudaram-se…
E nunca mais voltaram!

A cidade, o edifício,
o objeto, a pressa,
a paisagem que ninguém visita
da realidade a ilusão
de um desenho que é só meu!

A cidade.
E seus muitos caminhos:
ruas e praças
avenidas e túneis
viadutos e elevados
algumas vilas - muitos bairros
Antigos e novos
Renomeados…

Cidade de contornos vários
Espaços em brancos
Desenhos naturais…
O banco no meio do nada
…contando histórias de um estranho passado
que me leva de encontro ao ontem
Badala no mosteiro o carrilhão
O tempo aqui segue em outra direção
Mais rápido – impossível alcançar
Impossível contar
…não há dedos suficientes nãos mãos!

Desenhos sobrenaturais
A casa, a escola
o prédio, a estação, a igreja de domingo
o templo de todo dia,
o mercado de cada hora,
a fábrica, o escritório,
Tudo é paisagem por aqui!
Tudo é lembrança também…

Na cidade – sou criança a inventar passos
pulo amarelinha nos falsos desenhos
de tuas calçadas
Sou equilibrista…
nas faixas de tuas ruas
Sou menino aprendendo a ler
em teus cruzamentos
Quantos nomes de ruas
…quantos estranhos
que nunca irei conhecer!

E, na paisagem,
…do lado de fora do ônibus apressado
Em sua última viagem
Registro os muitos espaços…
Vazios de meus passos
Que seguem sendo apenas lembrança
Talvez amanhã eu pise por lá

Umido gosto de orvalho
com cheiro de folha adormecida
a compor a lembrança de um sonho bom!

Brilho de sombras amenas
a responder as luzes dos altos postes
que respingam asas
aos passos meus por sobre as calçadas…

A noite e sua marcha
de campos adormecidos
Vai sem pressa… Mais lenta,
Enquanto o pio atento da coruja
reza sobre minha habitual desatenção…

A vida se deixando passar
entre um pensamento ou outro
Um suspiro em mim…
E a chuva que já começa
junto com a manhã
Que diferente de mim: desperta.

E ao abrir meus olhos nessa manhã
…despertei na lentidão dos meus passos
Me senti um andarilho perdido
Sem caminhos
Sem chão!

O passo largo – sem trilha
parecia vestir outros pés que não os meus, 
Mas estes traziam os meus sabores
…galgavam degraus
soluçavam precipitações
E esperavam para pisar em novos horizontes!
 
 
Despi-me da aurora
Me vesti lentamente de atenção
Camuflei um sorriso nos lábios
E diante do espelho apaguei a ilusão!
Nem assim enxerguei a minha face
…havia rastros de nuvens
A realidade fugia pela porta esquecida aberta!
  
Nem versos,
… nem mesmo poemas!
Havia murmúrios pelos meus cantos
A derme ainda bêbada do sono da noite
…cuspia a recusa diante do despertar!

Os oráculos do dia gritavam em vão, 
O que diziam eles? Não te conto
pois me recuso a ouvi-los!
Sou feita de silêncio
…e nada me alcança se grita…

Lá fora a meditação do tempo é outra
…aqui dentro os ponteiros cansaram-se de sua sina
Mas eu ouço as válvulas do tempo escapando dos humanos
Do lado de fora de mim
…os pássaros tagarelam uns com os outros na árvore da frente
…fazem festa e eu não sei porque!
Mas sei que eles estão lá e vez ou outra sentam-se na minha janela
…bicam a vidraça e eu me agita na cadeira
Ah! A vontade outra vez – é tão forte que quase me vence
Respiro fundo e tento não ouvir o chamado do bico do pássaro
Chamando por mim na vidraça
…não posso abri-la – repito pra mim mesma muitas vezes!

Me arrasto pro quarto,
…atirou-me na cama!
Silencio no mundo
Adormeço de novo
Maldito pássaro que me chama
…uma hora dessas me engano
E o deixo entrar!
 

Ela estava sentada a mesa da cozinha. Lia o jornal da manhã e ouvia os desaforos num canal qualquer. A televisão estava ligada para que um som ocupasse o lugar. O cão sentado ao lado, aguardava por um pedaço de pão. E ele comia bem mais que ela - que preferia saborear o chá quente na xícara. O pão era mesmo para o amigo de patas várias….
Ela não estava ali. Pensava em olhos que a faziam sorrir e em lábios que a enlouqueciam e se dedicava a rascunhos intensos e extensos. Era sempre assim. Ela pensava nele quando sentia saudades e o papel ganhava novos horizontes…

——-

 

Do outro lado do oceano, ele sentava-se a mesa para um lanche. Um filme sem graça na sessão da tarde preenchia a sua atenção. Do lado de fora a chuva parecia uma cançaõ a falar saudades em seus ouvidos… Por companhia, tinha apenas o cão. A casa estava vazia - calma demais - parecia gritar o nome dela pelos cantos…
Na mesa, alguns escritos , os óculos e o telefone que não tocava… Ele já confundia diversos sons com a campainha tão esperada. Ela não ligava…
Ele não estava ali. Pensava em olhos que o faziam sorrir e em lábios que o enlouqueciam e se dedicava aqueles escritos que ela sempre lhe enviava. Era sempre assim. Quando ele pensava nela, o horizonte daqueles rascunhos o alcançavam.

Outra vez vira manhã.
A janela ficou entreaberta
…por onde passou o sol!

E ao longe - os olhos descobrem
…um barco solitário!
Que inicia lentamente,
…sua marcha pelo oceano!

Passa ao lado do farol
(que nem parece distante)
E meus olhos brincam de uní-los
No horizonte das minhas ilusões!

Murmura seu canto e vai embora
Seu caminho - é tão longo
É uma ave em seu vôo manso…
Calmo e gostoso,
pela imensidão do azul que dispõe!
Talvez seja sua forma de ilusão:
navegando num céu que pode ser mar!

Livros vs. blogs
por Renato Cruz.

Numa resenha do livro Ultimate Blogs: Masterworks from the Wild Web (Vintage), Thomas Jones fala sobre como os blogs são diferentes dos livros:

“Um blogueiro pode colocar um post sem edição na web, disponível aos leitores minutos depois de a idéia aparecer na sua cabeça. Um blog é não-linear, sempre inacabado e aberto. Pode indefinidamente receber acréscimos, ser reescrito, cortado e comentado. Mas, mais que isso, um blog precisa ser denso de hyperlinks, direcionando o leitor à blogosfera e ao resto da internet por meio de uma cadeia de caminhos que se bifurcam. Isso pode soar como sua idéia de pesadelo, o que é somente uma das várias razões pelas quais a internet não vai tornar os livros obsoletos tão rapidamente.” (London Review of Books, em inglês)

Série. Outros Tempos
Silêncios Urbanos 

1.

Há no silencio desta janela
…estrelas, luas e metáforas inquietas
Presas do lado de fora!

Há a meditação insensata
…de folhas que abraçam o vento
E juram beijar a liberdade!

Do lado de dentro,
presa a um pensamento
…há uma alma inquieta
De soluços vários…

O teclado dita o ritmo…
de suas sensações várias!
Na tela, outrora em branco
…versos dançam a frente dos olhos…

E o suspiro lento inveja as folhas
…do lado de fora!

*****

2.

A vela ilumina a mesa
…a xícara guarda o último gole
E sobre a mesa - sombras oscilam!
A palavra ignora tudo que não é noite
…a mão trêmula aguarda sozinha
Pelo que não lhe vem.

Olhos vidrados,
…cansaço na pele
Retrato triste, ausente,
O desespero arranca cabelos
…constrói lágrimas!

Ali, nos braços da madrugada
A poesia não vem!
Noite feito folha,
Em branco também!

*****

3.

Chove versos na manhã cinzenta
…o poeta e seu cigarro
Sentados na varanda
Vê partir na enxurrada
Sua criação mais recente!

Seus olhos não saem das nuvens
…suas mãos apenas acomodam o cigarro,
Mente do tamanho do universo
Nenhum verso lhe incomoda nessa hora!

*****

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