Ao ouvir o escrivão disse:
- Não estou interessado.
E saiu chutando a porta do cartório.
‘Seu’ Nésio só teve tempo de segurar ‘Dona Vida’ nos braços antes dele mesmo cair sentado numa cadeira ao lado da escrivaninha.
Do lado de fora os desavisados cidadãos Pardienses nem se deram conta do homem que saía aos berros de lá de dentro.
- Não estou interessado! E esmurrava o ar como um Pelé depois do gol.
Já se foi o tempo em que nessa cidade as coisas aconteciam porque tinham de acontecer.
E também já se foi o tempo em que os amantes não podiam decidir quem deveriam amar de verdade.
Do outro lado da rua Soriano já esperava por isso, e não pensou duas vezes quando viu o amante sair gritando. Atravessou a rua, entrou no cartório e disse ‘sim’ na frente do juiz e da noiva Margarida.
Agora não havia mais motivo para vergonhas e outras sensações mais fortes, a coisa estava feita.
Mas isso foi há uns seis anos atrás. Hoje Hugo e Soriano são um casal muito feliz, e Margarida apaixonou-se por Iara, a escrevente do cartório.
O Padre Jorgino nem acha mais estranho essa mania de se amar a quem se quer em São Pardinho.

2 comments
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Abril 24, 2008 às 12:59 pm
yuriassis83
ótima prosa, adorei
abraços
Abril 25, 2008 às 8:32 am
Lunna
adoro suas prosas meu caro, elas sempre me remetem a uma realidade tão diferente e distante da minha que fica com sons de viagens mil. Abraços meus