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Eu andava querendo compor um poema
Onde as rimas fizessem o tema
Tentei de todas as formas, até as eufóricas
Só me saia coisa torta ou metafórica

Insisto que rimo porque gosto do som
Não há contagem, somente um mesmo tom
De terminações silábicas sonantes
De concordância da seguinte com a de antes.

Não sigo métrica por preguiça indolente
para isso existem cordelistas, mais competentes
Que tem prazer em contar cinco aqui, sete acolá
Fico cansado só de ver o trabalho que isso dá…

Mas sigo tentando histórinhas muitas vezes infantis
Rimadas com a pobreza de meu vocabulário vazio
Escrevendo versinhos  com sabor de bala de anis
Versinhos fáceis e pobres com palavras que associo.

Sangue da perna,

Chuta bola quebra a canela

Desespera,

Desespera,

Jogo da vida cretina

E ela bandida

Corre sebo,

… Vem deita no pelego…

Beija minha boca,

Tira ar do meu peito

Te desejo,

E como desejo!

Larga o pé da bola, desmiolada…

Deixa te dar um cheiro!

Ai, que ainda te puxo a corda…

Larga dessa bola,

Deita no meu peito,

… Quero te contar nossa história!

Estrépito

Com estrépito

O homem deixa

De sonhar

O pássaro
Desaprende a voar.

3

O navio

Não via

O avião.

 

Gente

Na via

Ia

Mas não se via

Nem no navio

Nem no avião.


Só na navalha

Melhor se via

A gente que vai

A gente que ia.

4

Nada sei

Das vezes que sou.

Estou

: tudo que sei.

7

De madrugada

Vejo Deus

Dormindo

Em mim.

Ao ouvir o escrivão disse:
- Não estou interessado.
E saiu chutando a porta do cartório.
‘Seu’ Nésio só teve tempo de segurar ‘Dona Vida’ nos braços antes dele mesmo cair sentado numa cadeira ao lado da escrivaninha.
Do lado de fora os desavisados cidadãos Pardienses nem se deram conta do homem que saía aos berros de lá de dentro.
- Não estou interessado! E esmurrava o ar como um Pelé depois do gol.
Já se foi o tempo em que nessa cidade as coisas aconteciam porque tinham de acontecer.
E também já se foi o tempo em que os amantes não podiam decidir quem deveriam amar de verdade.
Do outro lado da rua Soriano já esperava por isso, e não pensou duas vezes quando viu o amante sair gritando. Atravessou a rua, entrou no cartório e disse ‘sim’ na frente do juiz e da noiva Margarida.
Agora não havia mais motivo para vergonhas e outras sensações mais fortes, a coisa estava feita.
Mas isso foi há uns seis anos atrás. Hoje Hugo e Soriano são um casal muito feliz, e Margarida apaixonou-se por Iara, a escrevente do cartório.
O Padre Jorgino nem acha mais estranho essa mania de se amar a quem se quer em São Pardinho.

Créditos da Imagem. Poeta da Lua

Noite molhada
…com espasmos de outono
Nós duas tramando segredos
…ensaiando passos
Buscando sombras na negra paisagem
A noite lenta
…tecendo silencios ao redor dos olhos

Janela aberta,
vento que serra…
Vapor do chá misturado em linhas,
…compassadas de silêncio.
Horas passadas, sombras mutáveis…
As letras escorrendo, pelas janelas do tempo

O movimento do corpo entoa uma dança
…na solidão dos ponteiros
O sorriso interpreta a lembrança
E o verso ganha forma em ousadias suas e minhas
… miragens que se diferem em traços e retas

E a noite lá fora segue pedindo uma xícara de chá!

sorrisos descobertos…
Letras entrelaçadas,
um pedaço de chocolate na mão…
E as linhas voando em todas direções
A paisagem é a saudade…
Inspiração das noites claras

E as lágrimas escorrem na vidraça
pelo lado de fora!
Enquanto os lábios murmuram uma saudade!

O oceano se faz lá fora…
Medos desfeitos e as páginas preenchidas…
Páro e olho a ebulição de minha xícara,
saudades da vida…

Poema escrito a duas mãos
Autoras. Letícia Coelho e Lunna Guedes
Noite de Sábado - 19/04/08 - 20h10minutos.

*****

Leia também.
- A chegada das letras no Brasil (Nossa Via)
- Literatura Jesuíta (Nossa Via)
- Conto. Retalhos ( Blog Acqua)

E que ressoem os tambores
Deste picadeiro descoberto
Um país podre, corrupto e desonesto
Que, ora vejam só!,
Ainda quer ser levado a sério.
Onde anda o tal povo varonil, bravo, guerreiro?
Onde anda a Justiça, cega mas de fino olfato?
Ou ainda por onde andará
Aquele que todas respostas daria?
Decrépitos, desonestos e calhordas
Nada melhor descreve a esta corja
Insensível ao povo que os elegeu
Inebriada pelo poder absurdo
salva pelo cabresto do tal vil metal.
Safados, arrogantes e canalhas
Que somente a um nome atende: PORCOS!
Ofensa ao pobre animal que
Dos restos de seus parentes prostituídos se alimenta
Injustamente nomeado, pois este na lama
Somente se refresca
Enquanto aqueles submergem e se deliciam,
Com suas falcatruas descaradas e desavergonhadas.
Seduzidos pela alienação social
Corrompidos pela mania nacional
“Uma caixinha resolve…”
Responsáveis somos por aqueles que não sabem
Que dentro de cada um de nós existe uma mente
Frenética e pensante.
Não pulsa por não ser dado à emoção
Não palpita por não saber de solidão.
Não dói por esquecer a quem fez sofrer.
Mas pesa. E um dia esses nobres vagabundos
Tomadores desse certo país
Quem sabe?
Sofrerão as consequências seus atos
Uma cela fria talves?
Uma morte lenta e dolorosamente purificadora?
Estragando a vontade daqueles que
Em dia com sua sanidade
Optam por um fim triste e merecido
Declaro que somente um final os aguarda
Um paraíso fiscal com polpuda mesada.
Paga por você, claro…

As coisas que acontecem no dia-a-dia, de alguma forma, alegre ou triste, mexem com a gente e influenciam pensamentos e atitudes e tudo que deles resulta. Fiquei muito comovido com todos os fatos envolvendo criança (desde o caso de tortura até o mais chocante e enigmático, que é o caso da garotinha). Não quero ser sensacionalista, nem pregar a culpa de X ou Y. O que anda acontecendo com a criançada é de um absurdo tão grande que o mais importante é que as pessoas envolvidas nos diversos casos sejam punidas, sejam quem for.

Escrevi algumas palavras que podem servir a qualquer pequenino que, por algum motivo, não está mais por aqui para nos ensinar como aproveitar a pureza e a alegria.

 

Algumas palavras

 

Sabe aquela menina

Já não mais ri

Não mais pula e brinca

Não mais encanta a casa

 

Aquela menina

Que sorria para a câmera

E girava em torno do corpo

Agora está parada

 

Foi dançar em outro lugar

Brincar com as nuvens

Viajar longas distâncias

Esbanjar de ser criança

 

Aquela menina sorridente

Só não merecia em tão pouca idade

Sair do mundo de repente

Vítima de tamanha crueldade

 

Agora brinca, menina

Sorria seu riso mais gostoso

E quem se comoveu aqui fica

Indignado pedindo justiça

Rezando para que seja capaz

De enfim descansar em paz

 

Abraços.

Passei a noite sem dormir,

Não tenho assunto…

Faltam palavras,

… Cabeça viciada!

Tempo, tempo, tempo…

Que me persegue, mesmo sem se fazer,

Volta tudo, para aquele minuto

Deixa - me parada naquele segundo,

Não saio mais dali,

Sim, fui feita para ti!

Cabeça viciada…

Precisa daquelas palavras,

Do olhar…

… Passei a noite sem dormir,

Te procurando em fotos,

Nas linhas do meu corpo…

Buscando teu gosto,

… Estás em mim.

Muda mundo, muda tudo…

Divagações sobre o amor,

Divagações sobre o amor…

…Passei a noite sem dormir…

Te achei em mim!

 

Hoje
Comemos a carne
Comemos as vestes
Somos antropófagos
Carnívoros devorando a vida.
Hoje
Somos miseráveis
Das idéias
Dos sentidos
Da futilidade.
Cérebros devorando mentes.
Hoje
Matamos os deuses
Outrora louvados
Antes adorados
Para sempre odiados.
Hoje
Não há motivos
Nem desculpas sinceras
Não há caminhos
Ou ruas seguras.
Amanhã
Nada restará
Das almas que devoramos
Dos homens que ignoramos
Dos deuses que matamos
Das vestes que nos abrigavam
Do frio gelado de nossa própria consciência.

Assim autentica-se o amor
beijo bandido e boêmio
cáustico, compreensivo e castrador
dado em determinado dia
efemero, etéreo, esbaforido.
Foste forte feita
galhofa galante de gaia,
habilmente humilde, habita
ilha ínfima, íntima.
Jogas em jogos jocosos
lânguidos, latejantes lábios,
mastigam minha memória
norteiam novas necessidades,
ostentados por oníricos orgasmos.
Posso pedir-te, posso?
Quero querer o quanto
Ruminar roucos repentes
Soprar solos às serpentes.
Tanto tento tocar…
Uivo único e ululante
Voluptosas vagas volteiam.
Xadrez de xamãs xilogravado.
Zagor em zeloso zigurate.

Nem tudo que escrevo

É o retrato do que sou

Nem tudo que penso

Revela minha essência

Nem tudo que faço

Pode me elevar ou condenar

Nem tudo que digo

Sai exatamente como quero

Nem tudo que respiro

É ar ou muito menos saudável

Nem tudo que bebo

É insípido e inodoro

Nem sempre encontro comigo mesmo

Mas estou em tudo que faço

Em cada pensamento vago

Do riso amarelo ao amor declamado

Estou em cada uma dessas coisas

Que não têm tudo exato

Mas refletem a colcha de retalhos

Que representa uma pessoa

E os pedaços juntados numa jornada inteira

Manoel Gonçalves

O musgo que cobre teus lábios

É o mesmo que pisastes ontem,

Arou a terra cavou o buraco…

Hoje te encontras misturado ao barro.

 

A marcha é lenta e logo desaparece,

Teu corpo apodrece em questão de dias,

Não vira cinza, mas inspira melodias…

Passam os anos logo se esquece.

 

Da semente madura vieste pura,

Ao terreno retorna tuas raízes enrolam

Estás na terra e não és mais cria,

Acabou – se a vida, não tens mais linha.

Lido com palavras como quem lida com cacos de vidro.

 

            A dor que sinto em minhas mãos, o sangue que delas escorre, as feridas que pouco a pouco passo a carregar – nada importa.

 

            É minha sina dolorosa, eternamente se cumprindo. E cumpro-a religiosamente, minuciosamente. Com a paciência de um monge e a resignação de uma montanha.

 

            Escrever é minha única saída. Nem o amor se assemelha a tamanha tarefa. O amor, inclusive, parece menos importante quando se aproxima das letras. Eu, quando vou te dizer “eu te amo”, tenho que me reduzir a três palavras.

 

            O problema não é da expressão em si: é do sentimento que é grande demais.

 

            Então, pra poder dizer tudo, digo claro pra dizer escuro. Digo, digo, vou falando, mas o que realmente quis dizer foi aquilo que não disse. Só assim consigo capturar a real essência da minha mensagem.

           

            Até a imagem, aquela minha velha amiga, vem se me mostrando incapaz. A dose é cavalar. O jeito é evocar silêncios. Dolorosamente.

 

            Enquanto isso, deixo rastro de sangue pelo chão. Será a prova patente da minha existência. Há sangue em cada letra que deixo pra trás. Há sangue nas sentenças, nos parágrafos. Há sangue no conjunto do texto.

 

            Hemorrágico, termino aqui a incessante tarefa da escrita. Porque só assim posso suportá-la: prevendo para ela um falso fim, um ponto final que se reveste de ponto, mas que é na verdade um abismo.

 

            Ou dois pontos desejosos de continuação.

Procuramos sentido nas coisas, procuramos dar sentido às coisas.
Ao acordar muitos abrem os olhos, mas poucos são aqueles que conseguem enxergar.
O outono que nos invade é um lugar intranqüilo, cinza e sem sentido, de onde fugimos sempre.
Uma vida filosófica ou uma estação de trens não fazem sentido quando não entendemos seus mecanismos, e é essa viagem feita da janela, onde deixamos para trás paisagens e amigos que nos torna desatentos e aflitos com relação ao sentido das coisas.
A vida é em muitos sentidos - e cantos escuros - uma metáfora, um enigma: Decifra-me ou te devoro! Conhece a ti mesmo!
Realmente há sentido nas coisas?
Há sentido em procurarmos o sentido das coisas?
Há coisas sem sentido que nos trás valores e experiências arrebatadoras.
Então viver é assim: uma aventura e uma desventura; um seguir e um deixar ir…

Desanuviô dotô,
Os pássaro tão de vorta nas foia das arve
A terra tá fumaceando
A neblina tá subindo pro céu

Os bois eu já sortei, dotô
Tão tudo lá no pasto
Comendo e drumindo,
Acordando e vagando prá ninhum lugá.

As barranca que desceu na chuvarada
Nóis, os peão tamo limpando
Sua estrada vai tá limpa amanha
Nem suja as bota sua muié num vai.

Craro que vai demorá uns pouco
Pra tudo vorta nos lugá
Tem teiado com gotera
Tem cerca prá arrumá.

Só uma coisa num tem cunserto, dotô
Nossos barraco que o sinhô nos cedia
Foi simbora com aquele mar
Todas nossas coisa tá na lama
Virou um brejo nosso quintar
Nóis tudo sabe que o dotô também tem seus pobrema
Que se pudesse havera de nos ajudá
Mas bem queria que o sinhô falasse era com Deus
Aquele qui o dotô tem no altar
Podia dizê pra’Ele que Amâncio, este vosso criado
Está muito chateado e de coração partido
Pois Ele deixou que sua fiinha de 8 mês
Rolasse junto com as traia e o barro fedido.

Mas num se amofe não dotô… Nóis é peão de longa data… daqueles de dormi nu frio do relento.
Mesmo com a alma trincada de sardade da minha menininha.. num havera eu de fazer valê meu talento?

 

Joana desligou o chuveiro, se secou e vestiu o roupão de seda. Pegou o creme hidratante, o espelho oval que fazia par com a escova de cabo trabalhado, presentes de seu amado marido Valter (juntamente com o roupão, onde estava envolvido também um bilhete com os dizeres: “para que fique ainda mais encantador o seu ritual de beleza, o qual me deixa qual poeta a admirar a sua musa lua”). Ela sentou-se em sua cama, levantou a perna esquerda, permitindo que o roupão se entreabrisse e revelasse parte de suas curvas, e lentamente iniciou a sua massagem de hidratação.

 

Valter poderia muito bem se oferecer para fazer aquilo, como de fato fizera algumas vezes, mas o ritual todo o fascinava, era como assistir o nascer do sol na colina, não tinha nada a fazer a não ser admirar o acontecimento natural, a beleza do momento. Ela só olhava de canto de olho e sorria. Era como o brilho do sol a se espalhar na planície. Valter saboreava cada segundo. E assim se seguia até todo o corpo exalar o perfume adocicado do creme. Porém, o ápice era ver Joana pentear o cabelo. Era tão meiga em suas ações que fazia daquele instante algo sublime. Nem uma sereia de verdade seria capaz de enfeitiçar um homem daquele jeito. Ela parecia irradiar, sua aura poderia iluminar o quarto. Era um esplendor. E ele, como marujo em transe, se encaminhava para o seu mar, onde se agarrava ao corpo dela e já não via mais nada, era presa fácil envolta em seus braços, inebriada em seu perfume, sua pele, seu rosto e seus cabelos. Adormecia nos braços de Joana ou agarrado a ela, como se não quisesse que aquele instante tivesse fim.

 

Não era um ritual de toda noite e nem sempre ele estava lá para assistir, pois às vezes chegava mais tarde do trabalho. Nesses dias, ela se aprontava toda e ficava a esperar, mas ainda deixava para escovar o cabelo um pouco antes de dormir, só para que ele visse. Não era nada extraordinário, mas era algo que o deixava contente e para ela já bastava.

Porém, um dia, ele não chegou. Ela esperou em vão. Embora soubesse do acontecido, do acidente que o levara, Joana ficou por um tempo fazendo aquele mesmo ritual, deixando perto da cabeceira da cama o espelho e a escova, esperando que ele aparecesse de uma hora para outra e pudesse espiá-la novamente.

 

Os anos passados fizeram de Joana uma mulher mais conformada com o que se sucedera. A escova foi guardada na gaveta, enrolada junto com o espelho num lenço de Valter. Os cabelos branquearam e ficaram mais ralos. A pele já não tinha mais o mesmo viço. As marcas no rosto não escondiam, porém, a alegria da vovó Joana em abraçar e apertar o netinho Valtinho ao fazer suas vontades.

 

Mas nesta noite a lua brilha imponente no céu. Não há nuvens. Ela parece estar com o dobro do tamanho. Joana toma seu banho, se seca e veste o roupão. Vai para o quarto, abre a gaveta e pega a velha escova, cuidadosamente preservada. Já não tem mais a mesma elasticidade, mas ainda assim faz o seu rito de beleza. Penteia os cabelos prateados e deita-se. Coloca a escova e o espelho ao seu lado e fica esperando. Ela sabe que esta noite ele vem. Valter voltará para admirar sua musa e novamente se emaranhar em seus braços. E depois colocá-la em seus braços, esperando que ela finalmente adormeça com um delicado sorriso na face.

 

 

 

 

 

 

Minha poesia tem nome,

Minha pele, meu sobrenome…

Nas linhas doces…

… Que traço aqui.

 

A pele arrepiada,

Sem máscaras…

Ela e mais nada…

Sinto-te imensamente,

Em mim.

 

…Passa o minuano lá fora…

Reporto-me a ti…

Sentado em uma cadeira giratória…

Contando dias…

Como eu por aqui.

 

E eu que me desfiz do tempo…

Reúno – me aos ponteiros…

E te procuro,

Quero-te…

Meu tudo,

Conto horas insanas…

… Faço – te juras, loucuras…

 

Beijo – te nos sonhos…

(alimento dos meus delírios)

… Faço-te mil versos…

Não consigo traduzir

Ao certo,

A presença viva que te faz em mim.

 

Minha poesia tem o teu nome,

Teus lábios nos meus…

Traz teu sobrenome,

Linhas doces traçadas…

… Que diz respeito a ti.

 

‘Pelos velhos tempos não morrerei por você. Assim, em carne-viva, dilacerada, contida e seca de angústia calada. Não morrerei, querido, e nem mesmo matarei o amor com falsas despedidas. Não tentarei embriagar meus sonhos bebendo a saudade em goles, nem provocarei soluços com palavras pelas metades. Não permitirei que os restos cortantes de velhos poemas caiam sobre a minha cabeça enquanto estiver andando sozinha pela rua. Não fingirei sorrisos fáceis, e não, não morrei por você.

Pelos velhos tempos não matarei nada e nem ninguém. Nem mesmo amedrontarei teus pecados, equívocos e pedidos de perdão. Amor, dessa vez eu apenas sorrirei com a minha alma na ponta da língua, sem confundir e ameaçar de morte meus pensamentos por você’.

Porque Ser não é uma questão de escolha. Ser é arma encostada na cabeça. É não se importar. E tarde demais o tempo se vai – um adeus a todos sem lágrimas. Porque Ser é não querer morrer – deixar-se ir é pior. Ser é vestir-se de desejos, anseios, conselhos, desesperos, infância, vestidos de algodão, malha fina, lã da china. Porque Ser é apertar olhos como uva, dentes na carne-maçã. Vista-se do que é pior. Vista-se do suor. Vista-se das lágrimas. Da maneira que ninguém se importa. Vista-se da ‘rosa’ que não escolhe sua cor. Porque Ser é questão de relógio – é um tempo perdido! Vista-se sem se deixar cobrir. Vista-se do vento e do sustento, do morno e do quente, de ninguém. Vista-se de gente. Porque o que se procura no final do dia é mais tempo. Porque se é uma questão de escolha, que se escolha o que não se pode desistir!

 

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