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Hoje não tenho quase nada a escrever, quase nada a dizer. Não sei o que sentir. Já rabisquei tantas coisas no caderno. Sentimentos, impressões, sensações, medos, projetos, sonhos… Rabisquei palavras e rabisquei lembranças. Mas apaguei todas elas. Não queria ler os garranchos do passado distante, de quando era garoto, entende, nem ver para onde se dirigia o próximo traço. Só sobraram manchas, borrões de lápis e muita, muita sujeira. Assopro o papel, é hora de se livrar dessa imundice. Quem sabe tentar escrever algo novo, algo diferente do que estava ali rabiscado. Rasgar as folhas amassadas e pegar papel novo. Quem sabe enxergar com outros olhos e contar coisas de maneiras diferentes. Como um autor de novela que espera o desenrolar da história e a reação do público para saber o que escrever e ver para onde levar a história, escrevo as primeiras linhas e fico a examinar, esperando que uma voz de dentro me diga se está bom e se devo continuar. Não tenho muito o hábito de escrever mesmo. Só achei que devia colocar algumas coisas no papel. Sei lá, de repente, antes que algo aconteça. Semana passada morreu o meu camarada. O cara também cuidava de umas garotas daqui da zona. Dizem que foi vingança ou porque mexeu com alguém. Sei lá. Essa “profissão” é assim mesmo. É difícil chegar a chefe, dono de casa. Sei lá se pode acontecer alguma coisa comigo. Eu só queria fazer as ”memórias”, dizer o que fiz, de onde saí (embora eu não seja o que esperava, mas tá valendo), mas tem muita coisa que eu não gosto, então, acho que vou inventar um pouquinho. Assim eu pareço um bacana saído de filme. hehehe. Droga, essa iluminação é péssima. Mal consigo enxergar o que está qui na folha. Também o que se poderia esperar de um quarto de pensão de quinta, sujo, mal-cheiroso e usado pelas prostitutas da esquina. Mais caro que isso eu não consigo tirar o meu, né. E aí, fica difícil trabalhar porque a concorrência é sem igual.

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