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E ao abrir meus olhos nessa manhã
…despertei na lentidão dos meus passos
Me senti um andarilho perdido
Sem caminhos
Sem chão!

O passo largo – sem trilha
parecia vestir outros pés que não os meus, 
Mas estes traziam os meus sabores
…galgavam degraus
soluçavam precipitações
E esperavam para pisar em novos horizontes!
 
 
Despi-me da aurora
Me vesti lentamente de atenção
Camuflei um sorriso nos lábios
E diante do espelho apaguei a ilusão!
Nem assim enxerguei a minha face
…havia rastros de nuvens
A realidade fugia pela porta esquecida aberta!
  
Nem versos,
… nem mesmo poemas!
Havia murmúrios pelos meus cantos
A derme ainda bêbada do sono da noite
…cuspia a recusa diante do despertar!

Os oráculos do dia gritavam em vão, 
O que diziam eles? Não te conto
pois me recuso a ouvi-los!
Sou feita de silêncio
…e nada me alcança se grita…

Lá fora a meditação do tempo é outra
…aqui dentro os ponteiros cansaram-se de sua sina
Mas eu ouço as válvulas do tempo escapando dos humanos
Do lado de fora de mim
…os pássaros tagarelam uns com os outros na árvore da frente
…fazem festa e eu não sei porque!
Mas sei que eles estão lá e vez ou outra sentam-se na minha janela
…bicam a vidraça e eu me agita na cadeira
Ah! A vontade outra vez – é tão forte que quase me vence
Respiro fundo e tento não ouvir o chamado do bico do pássaro
Chamando por mim na vidraça
…não posso abri-la – repito pra mim mesma muitas vezes!

Me arrasto pro quarto,
…atirou-me na cama!
Silencio no mundo
Adormeço de novo
Maldito pássaro que me chama
…uma hora dessas me engano
E o deixo entrar!
 

O sussurro na calada da noite chegou sorrateiramente aos seus ouvidos. Aquela voz, aqueles poemas, aquelas obscenidades… tudo conhecido e há muito não ouvido mais. Seria um delírio ou um sonho? Estaria ele escutando mesmo a rouquidão daquela voz suave e provocante a rondar sua nuca novamente. Ele nunca fora chegado a afetos demasiados banais para a sua criação e conduta de homem de negócios. Ah, mas com ela foi diferente desde o começo. O encontro na fila do cinema, os dois solitários (ela acabara de tomar um majestoso pé na bunda e ele sem expor suas emoções. Mas um esbarrão na saída da lanchonete e pipocas para todo lado foram o suficiente para marcar o início de um romance ardoroso, arrebatador e cheio de situações ousadas que ruborizavam as pessoas presentes, haja vista que o fato de ser local público ou privado nunca foi empecilho para ambos. Mas agora tudo era fumaça. Coisas que se desfiguram na névoa. A não ser quando a saudade derruba e o tédio arma o terreno para sentimentos de arrependimento e súplica. Nesses momentos, até um cheiro de ovo frito pode desencadear lembranças fortes. Ela era muito prendada na arte culinária e ele achava isso ótimo (o ovo era pedido especial dele para tomar o café da manhã). Mas sua paixão por gastronomia a aproximou de um chef francês que fazia algumas palestras no Brasil. O comunicado veio de forma simples, mas o corte que deixou foi profundo. Ele ainda não cicatrizou. E agora que a voz ecoava em seu ouvido, como um mantra do amor, ele revivia cada alegria e cada dor. Deu um salto e correu para o interruptor. Nada, nem sinal de qualquer vestígio dela. O jeito era se entregar às pilhas de papel dos relatórios e curtir a fossa ali mesmo ou socado num boteco qualquer. Quem sabe poderia pintar alguma coisa? Um esbarrão, coisas caídas, um jantar (desde que não fosse francês, é claro). O sussurro? Quem poderia ser? Ah, esquece, aquilo foi só um delírio de sua mente cansada, comprometida pelo álcool, e de sua paixão não correspondida. Os ecos eram de sua própria voz gritando para sua alma e vontade de viver esquecerem as mágoas e voltarem à vida.

 

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