You are currently browsing the monthly archive for Março, 2008.

Uma saudade no Bolso…

paisagem

Poema 06

Seu Américo sempre chegava em casa
com sua pasta preta - com zíper no meio!
…abandonava o chapéu sobre a mesa
Sabendo bem que Ana iria com ele ralhar!
“Papai, tem lugar na porta de entrada!”
É claro que ele sabia,
…mas não era a mesma coisa!
Tão distante era a bendita porta,
…e ali – abandonado na mesa
A mão poderia buscá-lo a qualquer momento!
Antigos hábitos não somem no acaso…

Na pasta preta de zíper no meio,
…guloseimas para a sua neta
Que já sabia dos “presentes”
E esperava pelo chamado sorrateiro
Ana de novo ralhava:
“Papai, você está acostumando mal a menina!”
Ele abria o sorriso amarelecido
E de rabo de olho espiava a menina,
sair correndo com os doces para o quintal!

A menina nunca gostou de doces,
…mas aqueles trazidos pelo seu avô:
Que gostosura abrigava todas aquelas cores,
…amarelo, laranja, vermelho!

Na cozinha, ele provava do almoço
E Ana ralhava de novo.
Já era costume…
Vovô ”roubava” café do bule
Na xícara que ficava no canto da cristaleira
Era dele e ninguém punha a mão
Ouvir reclamações de Ana
…Só mesmo o vovô gostava,
Que ao ouvi-las lembrava sua “velha” querida
E ele saia sorrindo com suas lembranças no bolso…
Procurando-me e sussurrando meu nome pela casa!
O vento fazia isso bem mais alto que ele!

Vovô Américo andava pelas ruas na sua “magrela”
…vinha de longe – sem pressa!
Dizia que contava as pedras do chão
…vovô era homem forte
Tinha os anos vividos,
Talhados na carne da face
Tomava gema crua antes de o sol nascer
E antes mesmo já estava pelas ruas sem pressa
…com sua “amiga magrela”
Dizia ele que contava as pedras do chão!

Vovô sabia de quase tudo!
e sabia também que a gente dá cordas nos ponteiros do mundo!
E de repente - vovô não mais abandonou o chapéu sobre a mesa
…Ana chorava ao olhar a porta da entrada!
Por onde ele já não mais passava…

A velha magrela encontrou descanso na parede de casa
Acho que já nem conhece mais os caminhos que antes fazia!
…a xícara nunca mais viu o café!
Depois de alguns anos - virou caco no acaso
E Ana chorava…
Enquanto colhia os pedaços de suas lembranças pelo chão
Sua bambina cresceu,
E os doces já não têm mais as mesmas cores de antes…

Quero um olhar diferente

Daquele que olha ao longe

E vê os pássaros voando

As folhas das árvores cantando

Balé de flores do campo

Sinfonia da água em cascata

Quero olhar para o céu

E ver a luz transpondo as nuvens

Sentar na relva úmida

Flutuar no vento vespertino

Observar o pôr-do-sol

E saber que depois dele

Nada mais é o que era

Já não há mais pássaros

Não se vê mais árvores

Muito menos montanhas

Rios ou cachoeiras

Flores e relva são meros rabiscos

Tudo perde seu significado

São simples silhuetas estranhas

Peças do mesmo cenário

Formas negras interessantes

Num fundo alaranjado

Elementos gráficos

De um belo quadro

Pelo grande Mestre pintado

Manoel Gonçalves

Suplico ao tempo que pare,

Para nunca deixares de me olhar…

Ter tuas mãos sempre a me afagar,

Meu corpo te quer, vem te apropriar.

 

Materializo - te ao meu lado,

Contorço as pernas a te esperar…

Toco meu corpo a tua procura,

Não sabes a falta que já me faz.

 

Angustia – me,

Entender a falta do que não se provou,

Se estivesse em mim teria medo do torpor…

Tenho medo de te perder,

É, acho que isso mostra que não sei quem sou.

 

Tira-me o sono longo,

Põe – me a sonhar…

Não importa se é dia ou noite,

Isso faz te encontrar!

 

Ora para o tempo parar quando te vires de novo…

Quero a noite mais linda e incapaz de acabar,

Beijar tua boca nunca mais te largar…

Fazer dos minutos, dias inteiros somente a te amar!

  

é mais medo
de olhar
e não ver

é mais medo
de jogar
e perder

é mais medo
de estar
e não ser

é mais medo
de errar
e viver.

- ficam aqui desculpas pelo meu sumiço.

Não era um poema – versos tortos – no sentido técnico da palavra. Também não eram versos – poesia vazia – se um poeta os lê-se. Era sim um lamento – não um lamento de amor – mas quase uma ode à loucura e a dor.
O fato é que as letras estavam lá – não só letras – mas o sentido e o sentimento de cada palavra. Era como um perfume que roubava o ar e asfixiava quem o percebesse.
Ironia, pois sua vida sempre foi um romance no sentido técnico da palavra. E como escritor, era o melhor autor de suas próprias desventuras.
E foi num momento – no intervalo - que tirou a própria vida para vencer o medo da morte.
Não era – nem foi – um herói no sentido mítico da palavra – viveu suas aventuras como um coadjuvante à espera do papel principal. Morreu no final como fazia com seus melhores personagens.
Não era um livro – no sentido de obra literária – mas tinha lá suas notas de rodapé, onde explicava que o conteúdo não vale nada sem uma premissa.
Afinal aquelas linhas não falavam de um conto – ou uma crônica diabólica – nem contavam a sua própria história: era apenas quase um poema!

porta aberta

Ela abriu a porta e se perdeu lá fora…
Seus pés não alcançaram nada - não saíram do lugar.
Ficaram ali, na soleira da porta aberta.

Seus olhos, contudo, mudaram-se…
E nunca mais voltaram!

Como se chama…

 a palavra que define,

Um sentimento…

Sentido na pele…

Zunido,

Sem definição aparente…

Por que ainda não experimentei?

O que é isso…

Que  ferve os instintos…

Arranca - me mais de dois sorrisos…

(De novo digo)

São raros e compassados…

Mas para ti,

Deixam de ser ariscos…

…Faz - me menina boba levada…

Quase fico engraçada…

Tentando responder - te…

A (moda) prosa…

Desenhar - te nas linhas…

…Talvez dizer o que não disse…

Fazer o que não fiz!

Hoje sou eu quem perco o sono…

Como a pouco perdi as margens…

Foram embora as palavras…

Ficou somente a vontade…

…Confusão literal…

Talvez algo mais profundo…

Mental ou sentimental?

Fugiram as letras…

Levaram junto as linhas…

Não sei a palavra…

Indefinida é…

…Deixou - me calada…

(Entenda minhas reticências…

Hoje são tuas…

Pois não inventei uma palavra…)

Ela, se olhando no espelho.

Ele, sentado atrás na cadeira de vime.

Primeiramente a certeza do reflexo, cada um seu lugar.

Depois ela esmaece no espelho. Fita os borrões que outrora lhe pertenceram.

A imagem dele aumenta, a dela diminui, uma cabe na outra, depois a imagem dele engole a imagem dela.

Ele está no último volume, ela está em desespero. Ela foge em defesa de seu último vestígio.

‘O que me excita é tua cara de espanto, enquanto tiro minha blusa, e arranco de ti o coração.
Beijando, lambendo, sentindo o que há do lado de fora do quarto escuro. Apenas para que eu possa dizer na manhã seguinte como é ter o peso de sua pele enroscada em meus joelhos.
Não que eu vá gritar ou implorar que volte, para buscar o gosto que ficou em mim. Essa não é a história de amor que quero em meu porta - retrato. Mastigo, degusto, e visto-me outra vez. Fecho a porta e deixo só a sensação de um banho recém tomado, grudado no espelho embaçado do banheiro.
Levo comigo a blusa amassada, o corpo suado, e tua cara assustada enfiada em meu seio.’

_

Hoje se falsifica de tudo, até batatas fritas! E não há nada que eu ou você possa fazer para mudar isso.
Falsificam-se remédios, atestados médicos, pulseiras de campanha sociais.
Falsificam-se idéias.
Mas a única coisa que não se falsifica é a mentira
Falsificam-se brinquedos, utensílios, ferramentas, alimentos.
Falsificam-se sentimentos.
Mas a única coisa que não se falsifica é a vergonha.
A mentira não passa pelo crivo da consciência, que julga e condena.
Será que somos todos corruptos ou desavergonhados?
Falsificam-se votos, dinheiro, passe de ônibus, óculos de sol.
Falsificam-se direitos e deveres.
Mas a única coisa que não se falsifica é a moral.
Falsificamos ideologias, mundos perfeitos, sociedades igualitárias.
Somos assim, propensos a todo tipo de doença, inclusive a da falsa coragem.
Hoje se falsifica de tudo, linhas de pesca, cds e dvds, textos literários.
Perfis de Orkut e Blogs!
Só não se falsifica a discórdia.
O autor deste texto também foi falsificado, senão, que sentido teria tudo isso?

A cidade, o edifício,
o objeto, a pressa,
a paisagem que ninguém visita
da realidade a ilusão
de um desenho que é só meu!

A cidade.
E seus muitos caminhos:
ruas e praças
avenidas e túneis
viadutos e elevados
algumas vilas - muitos bairros
Antigos e novos
Renomeados…

Cidade de contornos vários
Espaços em brancos
Desenhos naturais…
O banco no meio do nada
…contando histórias de um estranho passado
que me leva de encontro ao ontem
Badala no mosteiro o carrilhão
O tempo aqui segue em outra direção
Mais rápido – impossível alcançar
Impossível contar
…não há dedos suficientes nãos mãos!

Desenhos sobrenaturais
A casa, a escola
o prédio, a estação, a igreja de domingo
o templo de todo dia,
o mercado de cada hora,
a fábrica, o escritório,
Tudo é paisagem por aqui!
Tudo é lembrança também…

Na cidade – sou criança a inventar passos
pulo amarelinha nos falsos desenhos
de tuas calçadas
Sou equilibrista…
nas faixas de tuas ruas
Sou menino aprendendo a ler
em teus cruzamentos
Quantos nomes de ruas
…quantos estranhos
que nunca irei conhecer!

E, na paisagem,
…do lado de fora do ônibus apressado
Em sua última viagem
Registro os muitos espaços…
Vazios de meus passos
Que seguem sendo apenas lembrança
Talvez amanhã eu pise por lá

Hoje não tenho quase nada a escrever, quase nada a dizer. Não sei o que sentir. Já rabisquei tantas coisas no caderno. Sentimentos, impressões, sensações, medos, projetos, sonhos… Rabisquei palavras e rabisquei lembranças. Mas apaguei todas elas. Não queria ler os garranchos do passado distante, de quando era garoto, entende, nem ver para onde se dirigia o próximo traço. Só sobraram manchas, borrões de lápis e muita, muita sujeira. Assopro o papel, é hora de se livrar dessa imundice. Quem sabe tentar escrever algo novo, algo diferente do que estava ali rabiscado. Rasgar as folhas amassadas e pegar papel novo. Quem sabe enxergar com outros olhos e contar coisas de maneiras diferentes. Como um autor de novela que espera o desenrolar da história e a reação do público para saber o que escrever e ver para onde levar a história, escrevo as primeiras linhas e fico a examinar, esperando que uma voz de dentro me diga se está bom e se devo continuar. Não tenho muito o hábito de escrever mesmo. Só achei que devia colocar algumas coisas no papel. Sei lá, de repente, antes que algo aconteça. Semana passada morreu o meu camarada. O cara também cuidava de umas garotas daqui da zona. Dizem que foi vingança ou porque mexeu com alguém. Sei lá. Essa “profissão” é assim mesmo. É difícil chegar a chefe, dono de casa. Sei lá se pode acontecer alguma coisa comigo. Eu só queria fazer as ”memórias”, dizer o que fiz, de onde saí (embora eu não seja o que esperava, mas tá valendo), mas tem muita coisa que eu não gosto, então, acho que vou inventar um pouquinho. Assim eu pareço um bacana saído de filme. hehehe. Droga, essa iluminação é péssima. Mal consigo enxergar o que está qui na folha. Também o que se poderia esperar de um quarto de pensão de quinta, sujo, mal-cheiroso e usado pelas prostitutas da esquina. Mais caro que isso eu não consigo tirar o meu, né. E aí, fica difícil trabalhar porque a concorrência é sem igual.

O vento procura – me pelos cantos…
Preenche – me de lembranças…
Faz o que dorme acordar…
Fecho meus olhos…
E sinto as punhaladas…
Trago meu cigarro amargo…
E quando solto a fumaça…
Vejo o vento partir…
Com as lembranças mortas…
Que insistem em vir aqui.
Exorcizo - te em mim…
Regozijo quando tu te vais…
Para sempre…
Até o vento voltar!

I
Chamo, amo
: não obtenho
resposta
código
criptografada
Quem dera colher no ar
- quem dera brotar uma gota de orvalho.

II
Mato
o fato
Colho a notícia

III
Egito
ejeto
a jato.
Rejeito.

IV
Ana e Arlindo
(qualquer estrutura fragilizada)
pegam no ar
a previsão de sua morte.

Depois
Arlindo e Ana
Ele doente, ela sacana
Dois deuses bárbaros
Três filhos pequenos
E muita coisa a fazer.

‘Para você que não me ama.
Para você que nunca está nos lugares que eu mais gosto de ir
e nos momentos que mais importam para mim.
Para você que não gosta de dirigir, que não vê os filmes que eu recomendo e que anda com os pés nas costas.
Para você, amor, que finge não conhecer minhas indefinições só para que eu perdoe as suas limitações.
Para você que não me ama é que eu faço um brinde com um copo trincado.
Para você que não me ama, eu dou o último gole na garrafa.
É em sua homenagem, meu querido desamor, que eu me encho de vinho vermelho de vida para perder-te na ressaca.
Para você que não me ama.’

Aqui estou eu em teu peito
Mas não se perca ao entrar em meu mundo.
Você pode fugir
Mas não há como eu não te encontrar.
Meu caminho, feito de esquinas,
Perde-se em tuas curvas.
Momentos fartos de desejos,
Acumulam-se debaixo de nosso travesseiro.
Mas não há como não seguir em frente.
Se só o teu desejo me move,
Alimenta,
Constrói,
Invade,
Desfaz as dúvidas,
Cresce nas incertezas
Vence as diferenças.
Aqui estou eu em teu peito
A pedir de alimento
A tua vida!
E a dar a minha…

PARA ANDRÉIA

Umido gosto de orvalho
com cheiro de folha adormecida
a compor a lembrança de um sonho bom!

Brilho de sombras amenas
a responder as luzes dos altos postes
que respingam asas
aos passos meus por sobre as calçadas…

A noite e sua marcha
de campos adormecidos
Vai sem pressa… Mais lenta,
Enquanto o pio atento da coruja
reza sobre minha habitual desatenção…

A vida se deixando passar
entre um pensamento ou outro
Um suspiro em mim…
E a chuva que já começa
junto com a manhã
Que diferente de mim: desperta.

Pessoas somem todos os dias…

Mas suas rimas…

Não deixam de existir.

Saudade se mata…

Escrevendo,

Lendo,

As linhas apaixonadas…

Oras devassas…

Que deixam a pele arrepiada.

Saudade não passa…

Ficam as fotos,

Os textos…

Os sonhos…

Tristemente cortados…

…Nessas horas…

Penso na vida…

No que como,

Escrevo,

Leio,

Faço…

Todos os meus atos…

…A fragilidade do corpo…

A força da alma…

As lutas travadas…

…Muitas perdidas…

Poucas vencidas.

Valorizo o que tenho…

Não o que penso que tenho…

…Isso nem lembra poesia…

Talvez uma melodia…

Um suave blues…

De um enterro que não fui…

Mas de um alguém querido…

Que partiu pois de fato sofreu…

Deixa saudades…

Lágrimas…

Calo - me.

wickerpark.jpg 

 ’Eu ia dizer que te amo, mas lembrei daquela tarde fria
em que me olhou com medo.

Ia dizer que te quero, mas senti a incerteza do amanhã voltar-se contra mim.

Ia dizer que me completa, mas meu coração quase saltou da boca e foi difícil dizer.

E eu ia dizer que sinto saudade, mas temi que desconhecesse meu rosto.

Pois na verdade eu iria até o fim.
Lhe abraçaria com tanta força, que poderia sentir-se dentro dos meus olhos.

Lapidaria os teus lábios e devoraria a tua pele com o meu corpo por inteiro.

E eu ia dizer que te amo, e mais uma vez ia dizer que lhe amo, e te amo apenas dessa maneira.

Mas me deixei calada nos seus braços
transpirando loucuras pela alma’.

_

Sem chão,
Sem teto,
Sem paredes,
Sem mistérios,
Sem vergonhas,
Sem impossibilidades,
Sem desculpas,
Sem arrependimentos.
Sem chão não podemos traçar caminhos,
Sem teto não podemos olhar para algo acima de nós,
Sem paredes não podemos nos sentir protegidos,
Sem vergonhas não podemos nos governar,
Sem impossibilidades não podemos nos impor limites,
Sem desculpas não podemos ser humildes,
Sem arrependimentos não podemos aprender com os erros.
De todas as maneiras, atribuímos valores àquilo que nos transforma.
De todas as maneiras, construímos castelos com palavras.
De todas as maneiras, somos mais do que aquilo que possuímos.

E ao abrir meus olhos nessa manhã
…despertei na lentidão dos meus passos
Me senti um andarilho perdido
Sem caminhos
Sem chão!

O passo largo – sem trilha
parecia vestir outros pés que não os meus, 
Mas estes traziam os meus sabores
…galgavam degraus
soluçavam precipitações
E esperavam para pisar em novos horizontes!
 
 
Despi-me da aurora
Me vesti lentamente de atenção
Camuflei um sorriso nos lábios
E diante do espelho apaguei a ilusão!
Nem assim enxerguei a minha face
…havia rastros de nuvens
A realidade fugia pela porta esquecida aberta!
  
Nem versos,
… nem mesmo poemas!
Havia murmúrios pelos meus cantos
A derme ainda bêbada do sono da noite
…cuspia a recusa diante do despertar!

Os oráculos do dia gritavam em vão, 
O que diziam eles? Não te conto
pois me recuso a ouvi-los!
Sou feita de silêncio
…e nada me alcança se grita…

Lá fora a meditação do tempo é outra
…aqui dentro os ponteiros cansaram-se de sua sina
Mas eu ouço as válvulas do tempo escapando dos humanos
Do lado de fora de mim
…os pássaros tagarelam uns com os outros na árvore da frente
…fazem festa e eu não sei porque!
Mas sei que eles estão lá e vez ou outra sentam-se na minha janela
…bicam a vidraça e eu me agita na cadeira
Ah! A vontade outra vez – é tão forte que quase me vence
Respiro fundo e tento não ouvir o chamado do bico do pássaro
Chamando por mim na vidraça
…não posso abri-la – repito pra mim mesma muitas vezes!

Me arrasto pro quarto,
…atirou-me na cama!
Silencio no mundo
Adormeço de novo
Maldito pássaro que me chama
…uma hora dessas me engano
E o deixo entrar!
 

O sussurro na calada da noite chegou sorrateiramente aos seus ouvidos. Aquela voz, aqueles poemas, aquelas obscenidades… tudo conhecido e há muito não ouvido mais. Seria um delírio ou um sonho? Estaria ele escutando mesmo a rouquidão daquela voz suave e provocante a rondar sua nuca novamente. Ele nunca fora chegado a afetos demasiados banais para a sua criação e conduta de homem de negócios. Ah, mas com ela foi diferente desde o começo. O encontro na fila do cinema, os dois solitários (ela acabara de tomar um majestoso pé na bunda e ele sem expor suas emoções. Mas um esbarrão na saída da lanchonete e pipocas para todo lado foram o suficiente para marcar o início de um romance ardoroso, arrebatador e cheio de situações ousadas que ruborizavam as pessoas presentes, haja vista que o fato de ser local público ou privado nunca foi empecilho para ambos. Mas agora tudo era fumaça. Coisas que se desfiguram na névoa. A não ser quando a saudade derruba e o tédio arma o terreno para sentimentos de arrependimento e súplica. Nesses momentos, até um cheiro de ovo frito pode desencadear lembranças fortes. Ela era muito prendada na arte culinária e ele achava isso ótimo (o ovo era pedido especial dele para tomar o café da manhã). Mas sua paixão por gastronomia a aproximou de um chef francês que fazia algumas palestras no Brasil. O comunicado veio de forma simples, mas o corte que deixou foi profundo. Ele ainda não cicatrizou. E agora que a voz ecoava em seu ouvido, como um mantra do amor, ele revivia cada alegria e cada dor. Deu um salto e correu para o interruptor. Nada, nem sinal de qualquer vestígio dela. O jeito era se entregar às pilhas de papel dos relatórios e curtir a fossa ali mesmo ou socado num boteco qualquer. Quem sabe poderia pintar alguma coisa? Um esbarrão, coisas caídas, um jantar (desde que não fosse francês, é claro). O sussurro? Quem poderia ser? Ah, esquece, aquilo foi só um delírio de sua mente cansada, comprometida pelo álcool, e de sua paixão não correspondida. Os ecos eram de sua própria voz gritando para sua alma e vontade de viver esquecerem as mágoas e voltarem à vida.

 

Março 2008
S T Q Q S S D
« Fev   Abr »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Apresentando

Este Blog visa reunir a Arte dos Poetas e Escritores convidados a compor este cenário onde transitam palavras que pretendem fornecer aos leitores, elementos que enriqueçam o seu entendimento e fruição do texto que aqui se apresenta.

Versos - Poesias - Poemas - Palavras - Arte Ilusão - Realidade???

A autoria dos textos aqui publicados diariamente são de total responsabilidade de seus autores que se comprometem com veracidade quanto a autenticidade de seus textos.

Lembrando que a cópia ou reprodução dos impressos aqui contidos é totalmente proibida.

Não copie sem permissão.
Plágio é crime - com pena prevista no Artigo 9.610/98


Autores no Livro Aberto

Segunda-feira
Lunna Guedes

Terça-feira
Alexandre Costa

Quarta-feira
Gabriele Fidalgo

Quinta-feira
Yuri Assis

Sexta-feira
Letícia Coelho

Sábado
Manoel Gonçalves

Domingo
David Nobrega

Blog Stats

  • 2,234 hits

mais acessados

  • Nenhum