You are currently browsing the monthly archive for Fevereiro, 2008.

Agradável teu tatear no meu corpo…
Doce conforto do arrepio gostoso!
Aguça – me o cheiro…
Teu suor teu tempero…
A preencher os sulcos…
Dos amores perdidos…
Enrolados…
Sempre abandonados!
Necessito – te ao meu lado…
A assoprar minha nuca…
Enrolar meus cabelos…
Revirar – me pelo avesso…
Saborear – me…
A noite inteira…
…repousar nos teus braços…
E acordar…
Sentindo a brisa amena…
As gotas ainda ali…
Do nosso amor guloso…
E a manhã se faz sedenta…
Permanece serena…
Somente a esperar…
A noite chegar!

‘Eu não sei mais navegar pelos mares a fora, sem desejar encontrar algum pedaço de teu corpo boiando sobre o meu rio. Não sei não esperar que a correnteza te traga embrulhado num lamaçal de dor. Não sei. Meu bem, eu não sei não questionar o teu silêncio rouco ou teu pranto amargo de solidão. Não sei não desejar que você esteja aqui, e que a secura de teu olhar encharque-se com meu corpo úmido e desorientado. Não sei. Porque eu não sei impedir que as terças - feiras deixem de sangrar ou que a garoa faça cicatrizar meu coração. O que dói não quer passar. E eu nem sei se posso permitir que a desilusão faça meu sonho partir-se ao meio. Não sei. Não sei e não posso entender de outro modo’.

-

Esse é mais um texto daqueles que você dirá:
- Mas que papo é esse?
Na tela do seu computador, 800X600 vezes você me lê, 1024X768 vezes você decide o que ler ou não, mas isso não importa e nem é importante agora.
O que está implícito no fato de você estar aqui é um impulso livre - todos são - uma escolha – mesmo que seja inconsciente, um clique errado no mouse ou curiosidade literária.
Mas, você já se deu conta de por que está aqui?
Ache um sentido para tudo isso…(tempo)

Achou?
Ok! Você nem pensou nisso, não é?
Que mecanismo é esse que nos conecta?
É a “simpaticidade recíproca”.
Não me pergunte o que é, acabei de inventar este termo.
Heidegger entre outros, até Freud inventaram termos também…
Essa simpaticidade entre leitor e escritor…
…um completa o outro!

A todos os leitores e integrantes do Livro Aberto, peço desculpas por não ter feito o post no sábado. Assim como peço licença à Lunna por fazê-lo hoje, mas como percebi que o dela não entro no ar, resolvi colocar este aqui. Se invado o seu espaço, cara Lunna, desculpo-me de antemão. Abraços a todos. 

De repente

De repente me deu uma saudade

Mas de algo que não vivi

De repente me deu um medo

Mas daquilo que eu desconheço

De repente me senti aliviado

Mas ainda não sei o porquê

De repente sai por aí

Mas completamente sem destino

De repente eu me vi perdido

Mas eu nem sabia para onde ia

De repente encontrei você

E aí… Ah, aí tudo fez sentido

A saudade, o medo, o alívio

Sair por aí, ficar a ver navios

E olhar para o horizonte

Encontrar o sol nascendo em seu sorriso

O raiar do dia em seus olhos

E o recomeço a cada beijo seu

De repente eu me senti feliz

E vi que os repentes dessa vida

Por mais repentinos que possam parecer

Fazem sentido um dia, assim, de repente…

Manoel Gonçalves

sexy_dark.jpg 

Olhe dentro dos meus olhos….

Encontre a sombria alma,

A que te cala…

…Te desfaz…

Vim para te levar comigo…

Para a escurdidão completa…

Não quero comer tua carne fétida…

Tão pouco sugar teu sangue pútrido…

Quero - te inteiro…

Para alimentar…

Os sangue - sugas inacabados…

Que merecem tua falta de sabor!

Entre no meu olhar…

Siga meu caminho…

És um pobre coitado sozinho…

Ninguém sente a tua falta…

Tão pouco causas dor?

Vem…

Que dou um rumo…

Para esse teu corpo choroso….

E repleto de dor!

* Momentos  do Terror Contado.

*autoria desconhecida da imagem

1
Não sou faquir
Então meta sua faca
Fora daqui

2
A brisa vai por meu corpo
O tempo não, sai arrastando
O corpo no chão.

3
Primeiro se cria
Daí trabalho, trabalho
Mil vezes me atrapalho
Com a mesma poesia.

4
A moça ia perdendo
O pouco tempo que tinha
Se é que ainda há tempo
Pra se perder hoje em dia

Eu estou com uma daquelas minhas blusas decotadas que só coloco em momentos importantes, enquanto te vejo aí parado com essa cara de quem não dormiu a noite inteira.
Você me olha com esses olhos tristes, e eles parecem mesmo soltos de seu corpo. Assim, como se tentasse tocar-me pela última vez.
E eu me pergunto em silêncio, até quando você vai fingir que eu não sei. Você até que tenta me enganar com esse seu sorrisinho fácil, querendo dizer para eu deixar o seu lado da cama constantemente desocupado, até que volte.
Mas meu bem, eu estou na verdade gargalhando calada porque sei que você não vai mais voltar.
Não que não tenha lhe amado, ou que estivesse sempre esperando por esse dia. É que eu vejo nessa sua postura de ‘homem perdido’, todas as razões para você ir. Consigo até adivinhar para onde vai. Provavelmente vai se enfiar dentro de algum avião e se mandar pra qualquer lugar onde você se sinta seguro o suficiente para ser você mesmo. Sei lá porque você tem essa impressão, de que longe de si mesmo conseguirá ser mais feliz. Mas tudo bem, eu não discuto mais. Na verdade eu já parei de questionar suas manias há tempos. Acho que a última vez em que me sentei ao seu lado e deixei o meu coração pulsando em sua mão, foi naquele dia em que você me disse para eu fazer o que quiser com os meus sonhos, planos e sentimentos. E foi também alí, naquele momento, que eu percebi que não preciso de você pra nada.
Ok, confesso que doeu muito na hora e que eu chorei muito minutos depois. Pensei até que iria me afogar em minhas próprias lágrimas. Na verdade, por um instante até quis que isso acontecesse. Tinha a ilusão de que você me encontraria desmaiada, se desesperaria, cuidaria de mim, pediria desculpas sinceras - isso existe pra você? -, e que depois tudo ficaria bem. Mas ainda bem que essa minha fantasia idiota não aconteceu. Pelo menos assim não perdi meu precioso tempo fingindo acreditar em você mais uma vez. 
Na realidade o que aconteceu, é que eu deixei que as lágrimas secassem, e que o meu coração batesse no lugar certo. Ou seja, dentro do meu peito.
Acho até que você percebeu isso. Pois começou a reclamar de um certo vazio. Assim, como se faltasse algo em sua mão que estava acostumado a segurar. E essa foi a primeira vez que eu fingi não entender o que você dizia.
Alguns dias se passaram e agora eu estou aqui. Vendo
essa sua mala azul ao lado do meu sofá, e desejando que
você segure logo a alça disso e, saia daqui.
Volto-me a questionar se não enfrentará de uma vez por todas esse seu medinho bobo, e me dirá com todas as letras que irá embora. Mas não, você provavelmente ensaiou muito bem essa cena. Me olha com essa expressão perdida, depois diz que precisa só de um tempo, e num gesto tipicamente masculino, fica esperando que eu peça para você não ir, ou que pelo menos lhe abrace.
Mas seu plano não deu muito certo. O que é de fato, uma pena para um homem tão racional como você.
E então eu caminho até você, pego a cópia de sua chave, e digo num tom deliciosamente libertador: ‘ Não precisa mais voltar!’

Debaixo da amoreira, a sombra fresca era o meu prêmio naquele dia de sol. Ali, deitado com as pernas esticadas e os braços atrás da cabeça, eu descansava depois de colher as frutas, que deixavam uma tinta forte em meus dedos. Assim eu vivia a minha infância, colhendo amoras e brincando na terra à procura de tocas de coelho. Meu avô trabalhava na carpintaria que ele mesmo construiu. Um local cheio de ferramentas e todo tipo de bugiganga. Ficava ali durante horas, pregando e serrando todo tipo de madeira na construção de pequenos móveis para os vizinhos, e até que ganhava um bom dinheiro. Entre um descanso e outro, pitava um cigarro que ele mesmo enrolava, tomando suco de lima que minha avó fazia com muito carinho. Eu? Eu o ajudava às vezes, quando tinha de pintar alguma peça. Mas a minha diversão mesmo era brincar no quintal. Lá que eu era feliz. Bolinha de gude, pega-pega, futebol, subir nas árvores que rodeavam o terreno do meu avô. Quando a noite caía, ficávamos deitados no chão olhando as estrelas e contando histórias de fantasmas e heróis. Hoje, aqui nesta cidade grande e sem espaço, sinto falta do meu quintal e das brincadeiras, da minha infância e do suco de lima da minha avó. Hoje, posso apenas sonhar com tudo isso. Um doce e amargo sonho que ao mesmo tempo conforta e incomoda. O tempo passou para mim, mas a lembrança daqueles dias ficou. Não tenho medo do que virá daqui pra frente, pois onde eu estiver, comigo levarei a imagem do meu quintal dos sonhos.

Ela estava sentada a mesa da cozinha. Lia o jornal da manhã e ouvia os desaforos num canal qualquer. A televisão estava ligada para que um som ocupasse o lugar. O cão sentado ao lado, aguardava por um pedaço de pão. E ele comia bem mais que ela - que preferia saborear o chá quente na xícara. O pão era mesmo para o amigo de patas várias….
Ela não estava ali. Pensava em olhos que a faziam sorrir e em lábios que a enlouqueciam e se dedicava a rascunhos intensos e extensos. Era sempre assim. Ela pensava nele quando sentia saudades e o papel ganhava novos horizontes…

——-

 

Do outro lado do oceano, ele sentava-se a mesa para um lanche. Um filme sem graça na sessão da tarde preenchia a sua atenção. Do lado de fora a chuva parecia uma cançaõ a falar saudades em seus ouvidos… Por companhia, tinha apenas o cão. A casa estava vazia - calma demais - parecia gritar o nome dela pelos cantos…
Na mesa, alguns escritos , os óculos e o telefone que não tocava… Ele já confundia diversos sons com a campainha tão esperada. Ela não ligava…
Ele não estava ali. Pensava em olhos que o faziam sorrir e em lábios que o enlouqueciam e se dedicava aqueles escritos que ela sempre lhe enviava. Era sempre assim. Quando ele pensava nela, o horizonte daqueles rascunhos o alcançavam.

Sob minha janela

Correm águas cristalinas

E quem se banha nelas

Amor dos seus olhos mina

 

Sob minha cama

Correm águas musicais

E o som que delas emana

Acalma a dor dos meus ais

 

Sob meu corpo quente

Correm águas agitadas

Nutrem de vida a mente

Com suas idéias aladas

 

Em minha alma inquieta

As águas que tanto escrevi

Carregam sentimentos de poeta

Emoções diversas que vivi

 

Manoel Gonçalves

corpo.jpg


* autoria desconhecida da imagem

 

 

Passe a língua entre meus seios…
Aproveite,
Mate sua sede…
Na saliva de minha boca…
Toda,
Consuma até a última gota.
Misture meu suor…
Enlace meu cabelo,
Deixe os fios escorrer entre os dedos…
Arrepie minha pele…
Leve-me,
Mas não seja leve…
Quero sentir – te aqui…
Dentro de mim!


* Hoje estou no Blog Ensaios Amadores também.

Minha poesia não brinca
Carnaval na rua
Nem se fantasia
Fica em casa, descansando 

Minha poesia não usa
Sombra azul nos olhos
Não muda o cabelo todo mês
E se veste como os demais 

Minha poesia não ouve
Rock n’ Roll psicodélico
Não viaja no espaço sideral 

Minha poesia só quer sossego
Rejeita drogas lisérgicas
Não cabe nos estilos
E, definitivamente,
Não pretende virar hippie 

Minha poesia não serve
Ao gênio bem-estudado
Nunca foi batida
No liquidificador 

Minha poesia-monolito
Vai na contramarcha
Choca o senso
Que de tão diferente
Padronizou 

Minha poesia não pode
Ser presa na gaiola-rótulo
Fatalmente voa
Em busca de si 

Minha poesia vai dormir
Longe disso tudo
Explodirá em mil orvalhos
Brotando fresca manhã.

Digitei a primeira letra e logo se fez a palavra. Digitei a primeira palavra e logo surgiu a possibilidade de uma frase. Digitei a primeira frase e logo teria uma linha inteira. E então essa possibilidade me assustou. Não a possibilidade de criar uma palavra ou uma frase, mas a possibilidade de criar uma história.
Mas não queria parar. E decidi não colocar ponto, mas uma vírgula. Porque naquele momento uma vírgula era a palavra mais forte que eu poderia dizer a todos. Uma vírgula tem uma possibilidade.
A possibilidade de uma intenção claramente exposta: de que não acabou.
Digitei a segunda linha e não queria parar! Teria eu outra escolha quando escolhi não parar?
E então se fez o verbo e as possibilidades se multiplicaram,

Outra vez vira manhã.
A janela ficou entreaberta
…por onde passou o sol!

E ao longe - os olhos descobrem
…um barco solitário!
Que inicia lentamente,
…sua marcha pelo oceano!

Passa ao lado do farol
(que nem parece distante)
E meus olhos brincam de uní-los
No horizonte das minhas ilusões!

Murmura seu canto e vai embora
Seu caminho - é tão longo
É uma ave em seu vôo manso…
Calmo e gostoso,
pela imensidão do azul que dispõe!
Talvez seja sua forma de ilusão:
navegando num céu que pode ser mar!

Livros vs. blogs
por Renato Cruz.

Numa resenha do livro Ultimate Blogs: Masterworks from the Wild Web (Vintage), Thomas Jones fala sobre como os blogs são diferentes dos livros:

“Um blogueiro pode colocar um post sem edição na web, disponível aos leitores minutos depois de a idéia aparecer na sua cabeça. Um blog é não-linear, sempre inacabado e aberto. Pode indefinidamente receber acréscimos, ser reescrito, cortado e comentado. Mas, mais que isso, um blog precisa ser denso de hyperlinks, direcionando o leitor à blogosfera e ao resto da internet por meio de uma cadeia de caminhos que se bifurcam. Isso pode soar como sua idéia de pesadelo, o que é somente uma das várias razões pelas quais a internet não vai tornar os livros obsoletos tão rapidamente.” (London Review of Books, em inglês)

A publicação no blog, nos permite um retorno rápido da leitura. Na internet as pessoas têm acesso com mais facilidade as poesias e sem custo. Só existe um porém: existem pessoas que visitam nossos blogs de poesia, e é nítido que estão somente fazendo uma visita cordial, e de fato não fazem a leitura da poesia.

Apesar de existir internet e blogs, ainda prefiro o livro - o papel. Gosto de adquirir livros de poesias e ler quantas vezes quiser. Acredito que o livro é um resultado final, não vai ser modificado, está ali, escrito e impresso. O blog nos permite uma interatividade maior, isso é fato. Nos permite modificar a poesia, e até acrescentar um algo mais.

A internet facilita com certeza o acesso das pessoas as poesias, e facilita as parcerias. Uma vez que podemos criar em tempo real com alguma pessoa e logo depois postar.

Pela janela vejo a noite escura e sombria. Não há lua no céu, o que torna a noite mais enigmática. Uma sensação estranha permeia os meus sentimentos. Não sei exatamente o que me deixa assim, mas faço uma idéia. A noite silenciosa me convida às reflexões, às vezes banais, às vezes existenciais. Nessas últimas é onde me perco. Mas também é onde tenho a oportunidade de sair desse marasmo.

Não sei como vim parar aqui. Essa cela abarrotada de gente, fria e fedida. Um lugar onde a gente se esquece quem é e das coisas que mais gosta de fazer. Ontem, ao menos, foi diferente. Sai. Não fisicamente, é claro. Viajei por mundos distantes. Consegui vislumbrar além desse quadro de alvenaria. Voei acima das nuvens. Explorei os mares e seus segredos. Conquistei riquezas que jamais sonhava em possuir. Enfim, consegui sonhar. Era um paraíso. Mas a realidade crua me puxou de volta e cá estou, acuado, fragilizado e sem esperança.

Não lembro o que houve. Só sei que entrei num bar para espairecer. Andava meio desconfiado. Já havia algum tempo parecia não ser eu mesmo. Algo diabólico me rondava. Mas naquela noite o meu destino estava selado. Só me vem à memória que vi uma amiga, a qual platonicamente eu namorava, acompanhada por um cara. Meu mundo caiu. Tomei umas seis doses e tudo de apagou. Dizem que foi medonho, bárbaro. Mas eu não fiz nada. Só lembro-me de ter acordado na delegacia. E depois, aqui. Jurei inocência, mas ninguém acredita e riem da minha cara dizendo que aqui todos assim se definem.

Depois de tantas tentativas, enfim, descobriram o verdadeiro assassino. Ou melhor, fizeram com que eu descobrisse. E ele não gostou. Disse que a culpa de o terem pegado foi minha. Jurou vingança. Disse que acabará comigo e que de hoje não passo. Tento lutar, mas já não tenho forças. Acho que será essa noite. Então, só me resta contemplar a noite escura e me despedir. Aqui não é lugar mesmo para pobres sonhadores. Eu seria devorado. Sem esperança é melhor deixar que ele tome o controle. Ele já é maior que eu mesmo e me engole aos poucos. Depois de ter “experimentado” o gosto do sangue, em vez de se arrepender, gostou. Tudo leva a crer que eu perdi essa batalha. Serei a próxima vítima de sua falta de escrúpulos. Somente mais uma dentre as inúmeras que acho que fará. Minhas forças somem e as dele, criatura maligna, crescem. Só queria ter tido mais tempo para lutar. Faltam poucos momentos de lucidez. Os últimos. Depois nem sei para onde vou. Serei apenas o reverso do espelho, a outra face, a do mal. A que se mostrou mais forte e que está prestes a cometer mais um homicídio. Já não há mais tempo. Adeus.

Voa, voa liberdade…
Desprende-te da saudade…
Desloca – se com rapidez…
Sob as ondas dos sete mares!
Corra desimpedido pelo mundo…
Aproveite todos os segundos…
Abandone as regras…
Viva todo dia uma nova festa!
Crie suas próprias métricas…
Fale de amor, dor e perdição…
Não obedeça mais os poetas…
Seja você o artesão!
Viaje nas suas linhas…
Rasgue a margem perfeita…
Convide todos para sua ilha…
Escreva!
Escreva!

Hoje, também estou em:
Ensaios Amadores
Mostra Plural
Esperas

Tenho um segredo. 

Antes que eu morra, devo partilhar que tenho um segredo. Não se trata da minha idade ou do que eu fiz ontem e anteontem. É algo que se faz presente. É algo que não morre – nem com o tempo. 

Eu vejo e eis o que vos digo. Eu simplesmente vejo. E eu que pensava que tinha três olhos cegos: é que eu não aceitava o que me era mostrado. Mas agora que até a morte me cabe e que até a morte eu entendo e sinto – a imagem que meus três olhos concebem é verossímil. 

Eu vejo aquilo que o olho comum não capta: disso se constitui meu crime. E ninguém é capaz de ver na intensidade em que vejo. É mais. É além. E aqui estou eu no meio da noite tentando vos explicar meu segredo – que pra mim é tão simples e tão sofrível. Mas que por ser aquilo que ninguém vê, eu não encontro palavras. 

E se vos revelasse o conteúdo de minhas visões espectrais? Ainda assim, faltaria. Porque o que vejo é impalpável e está além da concepção humana de coisas tangíveis. 

É como ouvir o silêncio, o zunido insistente e inercial do silêncio. Ele sempre esteve ali – por isso nós, seres humanos, não pudemos captá-lo. Somos atentos às mudanças. Não ao que sempre está. E essa é a nossa imperfeição. E mais: por isso estamos longe de realmente entender o que é felicidade.

Sinto frio e fome: eu que me cerco nesta ilha, vendo-os de cima do meu pedestal – mas só. A solidão é o preço ingrato que a montanha paga. A paz é pesada. Mas cansei de estar só: e eis o motivo pelo qual grito. 

Quero agora não a compreensão que não escolho, a compreensão que me fere desde que nasci. Eu quero um amigo: alargar este entendimento e saber em quem meu grito encontra a sua ressonância. Algo dentro de mim me diz que do outro lado do mundo existe alguém sofrendo de inerência. 

E cá estou, ansiosamente esperando.

‘Eu achava, na verdade, que quando a noite caísse sobre a nossa cama, o ardor do silêncio seria substituído por aquelas idéias insólidas que eu tinha enquanto você dormia ao meu lado. Sempre achei que conseguiria despertar sua pele e alma, antes que você fechasse a porta do quarto e ficasse ao meu lado apenas daquela tua maneira intacta. Limitando-se à ser somente um porta - retrato em minha estante’.

-

Sabia que não era grande coisa, amparava-se na própria mesquinhez. Dizia-se um poeta – palavras tolas – mas discriminava a si mesmo.
Sabia que não valia coisa nenhuma ou alguma coisa que faltava o valor. Mesmo assim era rico de prosa e conversa.
Escrevia em letras tortas e frases falacianas a sua própria biografia. Era ‘o poeta’ moribundo – certo de suas honrarias. Mas a vida é cobertor curto.
Correu com o tempo para chegar à frente – tolice – o destino não tem patrão.
Ouviu dizer-se – ele mesmo assim falou: fui chegar mais cedo para ver-me de frente e sem máscaras.
Mas esquecia que era ídolo e platéia ao mesmo tempo.
Ficou mudo diante de suas próprias perguntas sem respostas. Então eu pergunto onde está o poeta? Onde se esconde em cada um esse ‘motivo’ que rima nossa alma com as letras?

Leia também em:
Mostra Plural
Fábrica de Histórias
Manufatura

Série. Outros Tempos
Silêncios Urbanos 

1.

Há no silencio desta janela
…estrelas, luas e metáforas inquietas
Presas do lado de fora!

Há a meditação insensata
…de folhas que abraçam o vento
E juram beijar a liberdade!

Do lado de dentro,
presa a um pensamento
…há uma alma inquieta
De soluços vários…

O teclado dita o ritmo…
de suas sensações várias!
Na tela, outrora em branco
…versos dançam a frente dos olhos…

E o suspiro lento inveja as folhas
…do lado de fora!

*****

2.

A vela ilumina a mesa
…a xícara guarda o último gole
E sobre a mesa - sombras oscilam!
A palavra ignora tudo que não é noite
…a mão trêmula aguarda sozinha
Pelo que não lhe vem.

Olhos vidrados,
…cansaço na pele
Retrato triste, ausente,
O desespero arranca cabelos
…constrói lágrimas!

Ali, nos braços da madrugada
A poesia não vem!
Noite feito folha,
Em branco também!

*****

3.

Chove versos na manhã cinzenta
…o poeta e seu cigarro
Sentados na varanda
Vê partir na enxurrada
Sua criação mais recente!

Seus olhos não saem das nuvens
…suas mãos apenas acomodam o cigarro,
Mente do tamanho do universo
Nenhum verso lhe incomoda nessa hora!

*****

Creative Commons License

Esta obra está licenciada sob uma
Licença Creative Commons.

 

Fevereiro 2008
S T Q Q S S D
    Mar »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
2526272829  

Apresentando

Este Blog visa reunir a Arte dos Poetas e Escritores convidados a compor este cenário onde transitam palavras que pretendem fornecer aos leitores, elementos que enriqueçam o seu entendimento e fruição do texto que aqui se apresenta.

Versos - Poesias - Poemas - Palavras - Arte Ilusão - Realidade???

A autoria dos textos aqui publicados diariamente são de total responsabilidade de seus autores que se comprometem com veracidade quanto a autenticidade de seus textos.

Lembrando que a cópia ou reprodução dos impressos aqui contidos é totalmente proibida.

Não copie sem permissão.
Plágio é crime - com pena prevista no Artigo 9.610/98


Autores no Livro Aberto

Segunda-feira
Lunna Guedes

Terça-feira
Alexandre Costa

Quarta-feira
Gabriele Fidalgo

Quinta-feira
Yuri Assis

Sexta-feira
Letícia Coelho

Sábado
Manoel Gonçalves

Domingo
David Nobrega

Blog Stats

  • 2,246 hits

mais acessados

  • Nenhum